O Centro de Eventos da Igreja Pompeia, em Porto Alegre, foi palco, no sábado (13/06), de uma celebração histórica do protagonismo feminino e da resistência negra. A deputada Laura Sito realizou a entrega da Medalha Preta Roza a 393 mulheres vindas de 72 municípios gaúchos. A honraria consolidou-se como um dos principais instrumentos de reconhecimento de lideranças que atuam na linha de frente da transformação social no Estado.
A medalha foi criada para dar visibilidade a mulheres que se destacam em áreas estratégicas como política, educação, cultura, saúde, segurança pública, academia, assistência social e movimentos comunitários. Para a deputada, o prêmio não é apenas um atributo individual, mas um ato de justiça histórica que fortalece a rede de lideranças femininas em território gaúcho. “Falar sobre felicidade para nós é um grande privilégio, a realidade que é tão dura para cada uma de nós, nos impede diariamente de poder brindar as nossas pequenas vitórias. Este é um momento para falarmos sobre os momentos de felicidade, onde nós podemos brindar o nosso bem-viver”, disse, acrescentando que as mulheres devem brindar juntas cada vitória que cada uma de nós tiver. Cada contribuição que cada uma de nós dá diariamente para a construção das nossas vidas, da nossa comunidade, do nosso Estado, do nosso país”, disse Laura para as homenageadas, lembrando da simbologia de Sankofa: “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.
A deputada falou ainda sobre o direito de ser feliz. “Nós temos o direito de ser felizes, e isso é mais do que lutarmos pelo direito de viver, nós queremos não somente existir, nós queremos existir de maneira plena. Nós queremos chegar lá, sentar nas mesas que decidem”, finalizou Laura.
Além das homenageadas, Manuela D’Ávila, pré-candidata ao Senado, também esteve presente. “É comum que nós mulheres da política escutemos que o que a gente cuida não tem importância. Quando nós chegamos nos espaços políticos, nós vamos pra educação, pra saúde, para os direitos humanos; e os homens cuidam do dinheiro, das obras. Os homens se orgulham de fazer pontes, viadutos, grandes estradas, e um dia eu olhei pra isso e pensei: ‘eles acham que cuidam de tudo o que é mais importante e eles não cuidam de nada que é vivo’. Nós mulheres na sociedade, nos espaços que vocês ocupam, seja na unidade de saúde, na arte ou na escola, seja empreendendo ou gerando emprego, seja sobrevivendo cuidando dos seus pais na ralação da vida”.
Para Manuela, as mulheres têm nas mãos, o que há de mais importante, que são “vidas”. “Ver vocês honrando e caminhando ao lado da Laura, que reconhece uma trajetória que não é só dela, me enche de certeza que nós estamos no caminho certo. A gente sabe que as mulheres negras morrem mais não porque são mais vulneráveis economicamente, porque têm menos lugar para ir, para escapar, porque as delegacias são mais longe das casas das companheiras que vivem nas regiões periféricas, porque são mais desprotegidas, por um Estado que deveria além de protegê-las, honrá-las”, afirmou Manuela.
Resgate histórico e literatura
Um dos momentos marcantes da cerimônia foi o lançamento da cartilha “Preta Roza”, que resgata a trajetória da líder quilombola que dá nome à medalha. Preta Roza foi uma combatente armada e figura central do Quilombo de Manoel Padeiro na década de 1830, simbolizando a insurgência negra no Sul do Brasil. A obra busca preencher lacunas na historiografia oficial e inspirar novas gerações através da memória de uma mulher que enfrentou o sistema escravocrata.
Manifesto por Mulheres Vivas
Durante o evento também foi feita a leitura do manifesto “Por Mulheres Vivas”. O documento é um chamado urgente para o enfrentamento das desigualdades de gênero, raça e classe, defendendo a ampliação de direitos e a implementação de políticas públicas robustas.
O texto destaca a importância de investimentos em saúde, educação, moradia e trabalho digno, com ênfase especial no combate à violência e na ampliação da participação política das mulheres negras. A entrega da Medalha Preta Roza reafirma que a construção de uma sociedade mais justa no Rio Grande do Sul passa, necessariamente, pelo reconhecimento e pela proteção daquelas que sustentam as comunidades em todas as regiões do Estado.
Homenagem de saudade
Vera Rosa, companheira que nos deixou faz poucas semanas, foi lembrada com carinho e emoção, como símbolo de referência de luta e força das mulheres negras. Sua lembrança e legado sempre serão fontes de alegria, luta e cuidado da saúde com a mesma coragem e intensidade que cuidava de todos ao seu redor.
Texto: Daiane Roldão

