terça-feira, 12 maio

A deputada Sofia Cavedon denunciou, nesta terça-feira (12/05), durante reunião da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, a forma como o Governo Leite interveio no funcionamento do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) Paulo Freire, em Porto Alegre. Segundo a parlamentar, o núcleo, que atende estudantes desde a alfabetização até a certificação do Ensino Médio, foi surpreendido, no início do ano letivo, pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e do Corpo de Bombeiros, comunicando a instalação de um curso de formação no mesmo espaço onde a escola funciona.

De acordo com o relato apresentado na Comissão, a ocupação do espaço pelos bombeiros ocorreu sem qualquer pactuação prévia com a direção, professores, funcionários ou estudantes. Sofia afirmou que não houve reunião para definir quais salas seriam utilizadas, nem acordo formal sobre o uso de áreas comuns, como pátio, banheiros com chuveiro e refeitório.

A deputada destacou que o Neeja Paulo Freire é referência histórica na educação de jovens e adultos no Estado e atende, há décadas, estudantes que tiveram o direito à educação interrompido ao longo da vida. “É uma escola que atende jovens e adultos desde a década de 1980. Um núcleo que oferece suporte pedagógico e provas diárias para certificação. São estudantes valentes, trabalhadores, mães, pais, pessoas que retornam aos estudos buscando uma nova oportunidade”, afirmou.

Sofia relembrou ainda que a escola funcionava anteriormente em uma sede na Rua Coronel Bordini, mas precisou deixar o prédio em março de 2024 devido a problemas estruturais e no telhado. Desde então, a comunidade escolar aguarda uma solução definitiva para o espaço original.

“É uma escola que vem sofrendo muitos ataques e agora precisa dividir o prédio com os bombeiros e bombeiras. Nós apoiamos enormemente o trabalho do Corpo de Bombeiros, mas cada instituição precisa de um espaço digno para atuar. Já se passou mais de um ano e nada foi feito pela reforma do antigo prédio de uma escola que é referência e tem quase duas mil matrículas anuais. A educação de jovens e adultos exige respeito”, declarou.

O diretor Gabriel Andrada Bandeira afirmou que o principal problema enfrentado pela comunidade escolar é a falta de diálogo e de informações claras sobre o futuro da instituição. “O que mais nos aflige é a falta de um calendário e de respostas. Em nenhum momento nos foi dito que esse endereço seria permanente, e fomos surpreendidos pela notícia de que dividiríamos o espaço com os bombeiros. Nossa briga não é com o Corpo de Bombeiros. O problema é a falta de comunicação”, disse.

Segundo Gabriel, a direção foi informada de que as negociações para a instalação do curso dos bombeiros ocorriam havia oito meses, sem qualquer consulta à escola. “Fomos pegos de surpresa. Vivemos uma incerteza muito grande. Queremos saber: a escola vai fechar? Vamos precisar buscar outro espaço? O prédio antigo será reformado? Não poderíamos ter sido consultados?”, questionou.

A professora Caroline Felipe também participou da reunião e ressaltou o papel social desempenhado pelo Neeja no acolhimento de estudantes em situação de vulnerabilidade. “Recebemos alunos PCDs, estudantes que precisam recuperar autoestima e confiança para voltar a estudar. Nós não somos apenas aplicadores de provas. Somos educadores que acompanham trajetórias interrompidas e ajudam essas pessoas a reconstruírem o vínculo com a educação”, afirmou.

Ela criticou a ausência de compreensão, por parte da Secretaria de Educação, sobre a função pedagógica e social dos Neejas. “Parece que a Secretaria não entende o que é a estrutura de um Neeja. Além das aulas e certificações, promovemos saraus, projetos culturais e espaços de protagonismo dos estudantes. Ficamos pensando por que, mais uma vez, é a educação que precisa abrir mão de seu espaço”, declarou.

Texto: Clarissa Pont
Foto: Kelly Demo Christ

Compartilhe