
“Se não quisermos voltar a 1964, as esquerdas, os setores democráticos e patrióticos do país precisam se unir; o PT tem autoridade para liderar este processo”, opinou o capitão José Wilson da Silva, em audiência da “Subcomissão para Recuperar o Conteúdo das Denúncias de Violações de Direitos Humanos durante a Ditadura Civil, Militar”, presidida pelo deputado estadual Jeferson Fernandes (PT). O encontro virtual ocorreu na manhã desta quarta-feira (09/09) e dá seguimento a uma série de oitivas com personalidades que testemunharam o período da ditadura militar, a partir do RS, e o papel da Comissão de Direitos Humanos do Legislativo nos atendimentos à época.
Integrante do setor de engenharia e construções das Forças Armadas, o capitão Wilson contou que ao ver a miséria do povo brasileiro quando veio de Pelotas a Porto Alegre, apesar da riqueza do Brasil, entendeu que precisaria participar ativamente de uma grande obra em especial: a construção de um novo país. “Era uma obra grande, mas eu me perguntava: será que eu não posso colocar um tijolo que seja nesta nova construção? Então comecei a militar”, confidenciou. Nas Forças Armadas, integrou uma corrente política com viés nacionalista, formada por marechais, coronéis, sargentos, suboficiais, subtenentes, além de atuar no Partido Trabalhista Brasileiro, cuja maior personalidade à época era Leonel Brizola. “Concorri a vereador em 1962/63, em Porto Alegre”, acrescentou.
Na década de 60, o Trabalhismo, segundo o capitão Wilson, estava em ascensão no Brasil, tinha caráter reformista e um cunho social forte, que influenciara leis sociais do período. “Daí a tentativa de impedimento de Jango em 1961, que foi evitada pela corrente trabalhista. Eu fiquei muito marcado por ter assumido posição favorável a Jango na minha unidade. Me apelidaram de tenente vermelho”, narrou.
Em 1964, o capitão assumiu como vereador de Porto Alegre, pelo PTB, quando intensificou atuação no Partido. Mas tinha o apoio do PCdoB, o que fez com que muitos pensassem que era filiado àquele Partido comunista. Ele conta que havia um movimento “americanófilo” contrário à Reforma Agrária, às nacionalizações de empresas e demais políticas reformistas de Jango, que por esta razão trabalhava pela derrubada do então presidente. “Eu valia por ter muitas informações. Inclusive no dia da inauguração da Refinaria Alberto Pasqualini aqui no sul, fiquei sabendo que a maior preocupação dos conspiradores era derrubar o Jango porque, se conseguissem, logo se repetiria no Peru, na Argentina…”, rememorou Wilson, que avisou a Jango sobre o golpe em curso, o que de fato ocorreu.
Golpe de 1964
Com o golpe, cerca 6563 militares foram excluídos Ex-officio. O novo governo discricionariamente instituído, segundo o capitão, fizera o mesmo nos sindicatos, no Judiciário, na intelectualidade, entre outros. “Todo ditador discricionário, que defende o atraso, é inimigo da intelectualidade. Daí à perseguição à educação, aos professores, aos livros”, observou, associando o período à atualidade.
Conforme relato, o Regime desmantelou o PTB e Wilson teve exilar-se no Uruguai, onde Jango já estava e Brizola chegaria 10 dias depois. “Eu e Brizola passamos a fazer um grupo lá para tentar reorganizar o contingente de companheiros. E, com ajuda do PCdoB, a partir de um dos líderes, o Paulo Melo, refizemos uma teia de contatos no RS, para reunir todos os setores democráticos na luta contra a ditadura. Aí veio o Ai5”, contou.
Após 7 anos de exílio, Wilson viu-se obrigado a deixar o país quando o golpe no Uruguai era preparado. “O presidente uruguaio do período começou a expulsar os exilados políticos. “Voltei ao Brasil na pior época: 1971. Fui direto do Chuí para o DOPS. Fiquei preso de 1971 a 1973”, contou.
Já em 1978/79, na Campanha pela Anistia, ele conta ter se reintegrado à luta política. “Comecei a participar da luta de corpo e alma. Eu tinha até uma sala na Assembleia Legislativa onde nos reuníamos para tratar da Anistia, com a cobertura do deputado Carlos Giacomazzi, do MDB. Também contamos com o deputado Antenor Ferrari”, completou, citando o primeiro presidente da Comissão de Direitos Humanos do país, ligada ao Legislativo gaúcho.
Por fim, de 1980 a 1982, o Capitão disse ter participado da fundação do PDT mais uma vez contando com o apoio do PCdoB. “Se quisermos repelir o golpe de 64, que está em vigência, agora mais sofisticado, inclusive com a dominação cultural, precisamos que os setores democráticos se unam, acima de arrogâncias”, finalizou.
Já o deputado Jeferson considera este o desafio do século 21: A unidade das frentes democráticas brasileiras. “É o necessário para defender a continuidade da democracia que o atual presidente ataca quando faz menção saudosista a torturadores, ameaça fechar Congresso, Judiciário, etc”, concluiu.
Texto: Andréa Farias (MTE 10967)

