O que se projeta para 2026 não pode mais ser lido apenas pelos números de gestão. Vivemos um tempo em que a melhora de indicadores materiais convive, paradoxalmente, com um clima político agressivo, marcado pela guerra permanente de versões. Hoje, estar no governo exige mais do que eficiência administrativa; exige disposição para o enfrentamento público, capacidade de produzir sentido, construir vínculos e disputar a narrativa sobre o que está em jogo no país.
Essa realidade impõe uma revisão urgente na forma como o campo democrático comunica resultados e se posiciona diante do conflito político. Não há mais espaço para uma comunicação defensiva e excessivamente técnica. Fugir do confronto simbólico não neutraliza o ataque; ao contrário, abre terreno para versões distorcidas ocuparem o imaginário social. Defender políticas públicas significa nomeá-las com precisão, assumir valores e tensionar visões que negam a ideia de projeto coletivo.
O debate recente sobre a escala 6×1 é exemplar. O que deveria ser tratado como tema de saúde, dignidade e justiça social — direito ao descanso, ao tempo livre, à convivência familiar e ao cuidado — foi rapidamente capturado por narrativas que naturalizam a exaustão e tratam a precariedade como destino individual. Apresentar o fim da escala como “ameaça à economia” revela o verdadeiro conflito: não se trata apenas de organizar o trabalho, mas da concepção de vida que queremos como sociedade. Se o campo democrático não assume esse debate, ele será reconfigurado por interesses que lucram com a sobrecarga cotidiana.
Parte expressiva da população passou a enxergar avanços sociais como direitos consolidados, e não como políticas governamentais. Esse é um êxito civilizatório, mas também um desafio político. Cresce a impaciência, sobretudo entre os jovens, que não se satisfaz apenas com o alívio da pobreza, mas exige mobilidade social real, reconhecimento simbólico e ruptura com desigualdades históricas. A luta contra a escala 6×1 dialoga diretamente com essa expectativa: expressa o desejo por uma vida que vá além da sobrevivência.
Conhecer profundamente nossos avanços e dominá-los no plano narrativo é parte central dessa disputa. Não basta ter bons resultados; é preciso explicá-los, contextualizá-los e vinculá-los a uma visão de futuro. Cada política pública deve ser apresentada como fruto de escolhas políticas, valores claros e um projeto de país.
O desafio se amplia em um ambiente digital que privilegia a velocidade sobre a veracidade. Enquanto o campo democrático responde com cautela institucional, forças autoritárias exploram medo, ressentimento e desinformação para desconectar memória e realidade. Indicadores econômicos, por si só, não se sustentam: precisam disputar espaço com narrativas simplificadas amplificadas por inteligência artificial. Por isso, não se trata apenas de comunicar melhor, mas de comunicar com lado, coragem e intenção política. O enfrentamento público é parte da tarefa democrática.
Nesse contexto, é preciso reiterar que a eleição presidencial será decisiva para a estabilidade institucional, além de representar uma escolha entre modelos econômicos. O cenário aponta para um novo plebiscito entre dois campos consolidados e visões antagônicas de Estado e sociedade, exigindo comunicação eficiente e vigilância permanente para preservar a legitimidade do processo eleitoral.
Em última análise, o caminho até 2026 exige que a política recupere sua dimensão pedagógica, organizadora e mobilizadora. Não basta informar; é preciso formar consciência, organizar esperança e preparar o campo democrático para uma disputa que será, antes de tudo, simbólica e cultural. A eleição que se aproxima será um embate sobre o sentido de nação, de avanços civilizatórios e de futuro. A vitória dependerá da capacidade de afirmar que a democracia é uma construção viva.
* Deputado estadual do PT/RS
Foto: Charles Scholl
Foto: Charles Scholl

