quinta-feira, 05 março

*  Stela Farias

 

Janeiro ainda nem terminou e o Rio Grande do Sul já contabiliza sete feminicídios em Guaíba, Canguçu, Santa Rosa, Porto Alegre, Muitos Capões e  Sapucaia do Sul. O caso mais recente foi o de uma adolescente de apenas 15  anos, morta pelo namorado em Sapucaia. Um crime brutal, mas infelizmente,  previsível. Diante desse cenário, a pergunta é inevitável e incômoda: até quando o Estado seguirá falhando com as mulheres e meninas? 

O RS fechou 2025 com pelo menos 90 feminicídios, um aumento de 10% em relação a 2024. E isso não é estatística fria. São vidas interrompidas, famílias destruídas e um retrato cruel da falência das políticas públicas de proteção às  mulheres. Cada feminicídio carrega a marca da omissão institucional, da ausência de prevenção e da tolerância histórica com a violência de gênero. 

Enquanto mulheres morrem, o governo do Estado insiste em medidas  pontuais e discursos que não se sustentam na prática. Recriar uma Secretaria Estadual das Mulheres é importante, sim, mas sem orçamento, estrutura e políticas permanentes, vira só vitrine. Anunciar ações policiais espetaculosas pode render manchete, mas não enfrenta a raiz do problema. Feminicídio não começa no golpe final. Começa antes: no machismo estrutural, na violência naturalizada, na desigualdade cotidiana e na falta de compromisso real com mudança cultural e educacional dos meninos e homens. 

Não adianta lamentar depois do corpo no chão. Nem prometer prioridade enquanto casas de acolhimento são insuficientes, serviços de proteção seguem sucateados e a rede de proteção opera precarizada e no limite, quando não no abandono. Feminicídio não é tragédia imprevisível. É  consequência direta da omissão do Estado e da escolha política de não enfrentar  a violência contra mulheres e meninas como o problema estrutural que é. 

Como presidenta da Força-Tarefa de Combate aos Feminicídios da Assembleia Legislativa, afirmo sem rodeios: não aceitaremos o silêncio, a  banalização nem o faz de conta. Seguiremos cobrando ações concretas, prevenção de verdade, ampliação da rede de atendimento, capacitação contínua  das forças de segurança e garantia de recursos públicos para salvar vidas. 

Porque nenhuma mulher ou menina a menos é aceitável. E cada dia sem ação não é neutralidade: é cumplicidade.

(*) Deputada estadual e presidenta da Força-Tarefa de  Combate aos Feminicídios do RS 

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