A versão gaúcha de uma profissão que já esteve entre as mais respeitadas e buscadas como ofício, principalmente pelas mulheres, foi novamente às ruas da Capital na terça-feira (11) para lutar por aquilo que acredita e que deveria ser também uma luta de toda a sociedade: um ensino público de qualidade que não menospreze a importância daqueles e daquelas que o fazem acontecer. Falo das professoras e professores estaduais, educadores dos nossos filhos e netos, que não pedem nada além do justo e previsto em lei.
Pelas ruas de Porto Alegre, estavam milhares de homens e mulheres de todos os rincões do estado que teimam em não largar a utopia que é ensinar, espalhar o conhecimento, oferecer seus saberes. E sob um sol forte, marcharam para reivindicar uma reposição salarial de 15,2% – incluindo os inativos, cujo menosprezo recebido é ainda maior – e a aprovação da emenda do CPERS à Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 garantindo o reajuste, pois o governo, comprovando ser esta sua especialidade, novamente ignorou a categoria no orçamento do ano que vem.
A mobilização dos educadores deveria servir de alerta a todos de que a vida real de quem atua na educação pública gaúcha é composta pelo abandono das escolas, cortes de direitos, congelamento de salários e de uma penalização sem precedentes daqueles que conquistaram, depois de décadas, sua aposentadoria.
Se por um lado o ato foi reivindicatório, por outro escancarou o descaso do governador Leite com esses trabalhadores, cuja tentativa de humilhação é a tônica das suas gestões. E também mostrou que o marketing – que “dá vida” a uma realidade que só existe nas peças da propaganda oficial do Executivo estadual – ferramenta que busca maquiar aquilo que deveríamos enfrentar, que é, para citar apenas um exemplo, a queda do RS no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, “termômetro” do desempenho dos estudantes brasileiros.
No levantamento, a taxa de aprovação dos alunos gaúchos registrou um dos seus piores momentos, caindo do 16º lugar para o 19º, ficando abaixo na média nacional. A nota da gurizada por aqui também passou da quarta para a sétima posição entre todos os estados. A depender de anos iniciais, finais ou ensino médio, ficamos meio que à deriva, ora em 9ª posição, ora em 11º lugar.
À nossa frente, estão Ceará, Paraná, Goiás, São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina, Piauí, Distrito Federal, Pernambuco e Alagoas. Empatamos com Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que é pouco se levarmos em conta a imagem de gestor competente e moderno que é vendida aqui e lá fora.
A luta dos nossos educadores expõe também outra “maldade” do governador, para quem o estado deve ser visto como uma extensão de desejos e interesses particulares. Nesse “mundo”, o Sr. Eduardo Leite descumpre o que determina a Constituição desde 2020, que é a aplicação mínima de 25% das receitas estaduais na educação pública.
Bom de papo, “convenceu” o Ministério Público, a partir de acordo firmado em junho passado, a “perdoá-lo” pelo déficit dos anos de 2021, 2022, 2023 e 2024 e a dispensá-lo de cumprir em 2025 e 2026. Ou seja, o certo mesmo – a aplicação integral dos 25% na educação – só começará lá em 2039.
Serão 18 anos ignorando a lei e culpando, além dos próprios servidores aposentados, os infortúnios climáticos por isso. Para quem tem dificuldade de enxergar o tamanho do prejuízo nesse período, significa retirar da educação das nossas crianças e adolescentes valores que podem ultrapassar os R$ 45 bilhões. Mas, diante disso tudo, o óbvio aparece, pois não há “tapete” grande o suficiente que esconda tamanha “sujeira”: repetência de alunos, evasão de estudantes, escolas deterioradas, educadores e trabalhadores da educação desamparados e desmotivados.
E o mesmo reflete na escolha da profissão: nas nossas universidades públicas, mais de 26% das vagas para formar futuros professores estão ociosas, índice que aumenta para 32% quando tratamos de faculdades privadas. E por conta desse tipo de política aplicada por aqui, que ignora o artigo 6º da nossa Carta Maior, onde a Educação é colocada como um direito social e um dever do Estado, as projeções são nada animadoras: o Brasil poderá enfrentar déficit de 235 mil professores na educação básica em 2040.
Enquanto isso, na nossa Santa Maria, os educadores, há mais de uma semana em greve, se levantam contra uma reforma previdenciária proposta pela atual gestão municipal que fere mortalmente direitos, suprime garantias e afeta pesadamente suas aposentadorias. E tudo isso sem diálogo, negociação, apenas imposição.
A forma como os profissionais da educação são tratados evidencia, dizem alguns estudos, um “apagão” de professores nas próximas duas décadas. E adivinhe quem pagará a conta? A resposta todos nós já sabemos. Nessa história toda, o nosso mandato tem lado: o lado da educação, o lado das professoras e dos professores. Vamos lutar até quando for possível pela reposição salarial e por barrar os retrocessos de Leite e sua turma.
Deputado Valdeci Oliveira, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul
Foto: Greice Nichele
Artigo publicado originalmente no site da Assembleia Legislativa em 14 de novembro de 2025

