quinta-feira, 05 março

 

 

Um dos marcos mais importantes da história da luta pela terra no Brasil completa 40 anos nesta semana. Na madrugada de 29 de outubro de 1985, cerca de 1,5 mil famílias ocuparam a Fazenda Annoni, uma área de 9,3 mil hectares então pertencente ao município de Passo Fundo — hoje, Pontão, na região norte do Rio Grande do Sul. A ação, que mobilizou 7,5 mil trabalhadores rurais de 32 municípios gaúchos, marcou o nascimento de uma nova etapa na organização dos movimentos camponeses e foi determinante para a consolidação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). À época, a propriedade estava praticamente abandonada — coberta por capim, com poucas cabeças de gado e equipamentos deteriorados. A ocupação envolveu uma grande operação de resistência, com famílias que chegaram ao local em mais de 200 caminhões, ônibus e automóveis.

O processo de luta e permanência se estendeu por anos, até resultar na criação oficial do Assentamento 16 de Março, em 1992, e na regularização de 1.250 famílias, formalmente assentadas em 1993.

 

Quatro décadas de produção e resistência

Quarenta anos depois, o território antes improdutivo transformou-se em um dos principais exemplos de sucesso da reforma agrária. O assentamento da Annoni produz uma ampla variedade de alimentos — suínos, leite, verduras, hortaliças, feijão, frutas, soja, milho e trigo —, com destaque para a Cooperlat, cooperativa que hoje fornece alimentos para a merenda de 220 mil crianças em 52 municípios e 74 escolas estaduais.

No campo da educação, a Annoni também se tornou referência. O Instituto Educar abriga o único curso superior de Pontão: a graduação em Agronomia com ênfase em Agroecologia, responsável por formar centenas de profissionais comprometidos com a agricultura sustentável. Já a Escola 29 de Outubro segue como um marco da educação do campo, unindo ensino formal, cultura e valorização do território.

 

Celebração e memória viva

O aniversário de 40 anos foi celebrado no último fim de semana com uma extensa programação que incluiu debates, feira de produtos da reforma agrária e apresentações artísticas. O evento reuniu assentados, autoridades e militantes históricos. Durante os pronunciamentos, figuras que participaram da ocupação, como o padre Arnildo Fritzen, relembraram os dias de resistência e as dificuldades enfrentadas pelos milhares de camponeses que acamparam em busca de um pedaço de terra para viver e produzir.

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, esteve presente e destacou o papel da Fazenda Annoni na história da reforma agrária brasileira. O deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) também participou das comemorações e lembrou da atuação do pai, Adão Pretto, figura histórica do movimento camponês e primeiro colono a ser eleito deputado no Brasil. “Em 1985, meu pai, o Adão Pretto, que foi o primeiro colono deputado, esteve aqui nesse território sagrado da Annoni. Ver a produção de toneladas de alimentos saudáveis aqui, onde antes era latifúndio improdutivo, é a maior prova de que a reforma agrária dá certo”, afirmou o parlamentar.

Quatro décadas após a ocupação, a Fazenda Annoni segue como símbolo de resistência, produção e dignidade para o povo do campo, reafirmando que o direito à terra é também o direito à vida e à soberania alimentar.

 

Texto e fotos: Guilherme Zanini 

 

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