quinta-feira, 05 março

Parlamentares, pesquisadores e lideranças do setor agropecuário participaram nesta quinta-feira (09/10), na Assembleia Legislativa, de audiência pública promovida pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo em alusão aos 50 anos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na região Sul do Brasil. Com o tema “50 anos da Embrapa no Sul do País: ciência, recuperação e resiliência dos sistemas produtivos”, o evento apresentou os principais avanços científicos e tecnológicos desenvolvidos.

Na avaliação do presidente do colegiado, deputado Zé Nunes, a Embrapa tem um papel fundamental no desenvolvimento rural sustentável e na produção em áreas estratégicas como fruticultura, hortaliças, pecuária, soja, trigo, florestas, uva e vinho, suinocultura e avicultura. Ele reforçou a importância da soberania alimentar do país e o papel da empresa na transformação da agropecuária brasileira, aliando inovação, sustentabilidade e desenvolvimento regional.

“O Brasil hoje é uma referência na produção agropecuária para o mundo, na produção de alimentos para o mundo. É um grande exportador de alimentos para o mundo. O Rio Grande do Sul, sem dúvida, tem um destaque, um histórico de iniciativas e de protagonismo na área da produção agropecuária, sendo referência inclusive para muitas regiões do nosso país. Isso tudo tem a ver com a história da Embrapa”, afirmou.

Conforme Zé Nunes, que propôs a audiência, as cinco décadas de história da empresa revelam a importância da pesquisa, do conhecimento e da tecnologia no campo, especialmente para comunidades quilombolas, indígenas, assentados da reforma agrária e agricultura familiar. “Certamente a fruticultura não seria o que é sem a Embrapa,  a produção de trigo no Rio Grande do Sul não seria o que é sem a Embrapa, assim como a produção de carne e de arroz”, completou.

Pepe Vargas destaca papel da Embrapa na agricultura e pecuária

O presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas, afirmou que o Brasil se transformou em grande produtor de alimentos devido ao esforço, à dedicação, ao trabalho dos produtores rurais, sejam familiares, médios ou de maior porte. Ao destacar a importância do Estado como indutor de políticas públicas, Pepe Vargas afirmou que a agricultura e a pecuária brasileira demonstram a necessidade da articulação do poder público.

“O Estado brasileiro, em determinado momento, resolveu que tinha que ter política pública para isso ser viabilizado. Acho que sempre é importante a gente se alentar a isso, principalmente nos dias atuais, quando tem sempre alguns discursos que tentam secundarizar o papel do Estado no desenvolvimento econômico e creditam exclusivamente ao mercado às questões do desenvolvimento econômico”, comparou.

Pepe também reconheceu a importância da lei do crédito agrícola, que fez com que Estado brasileiro subvencionasse o crédito para a agricultura e para a pecuária. “Mas também houve políticas públicas de assistência técnica, de assistência rural, e também a pesquisa agropecuária. Seria impensável a agricultura e a pecuária brasileira terem o desenvolvimento que tiveram se não fossem Embrapa”, afirmou.

“Exportamos alimentos de qualidade”, afirmou diretor-executivo da Embrapa

O diretor-executivo de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa, Clenio Pillon, mencionou o trabalho de desenvolvimento e os reflexos no aumento da produção alimentar no país em cinco décadas. Por conta da atuação da Embrapa, o Brasil passou a ser um grande produtor de alimentos. “Exportamos alimentos de qualidade, produzidos com sustentabilidade para mais de 200 países no mundo”, afirmou. Segundo Pillon, o país produz mais de 350 milhões de toneladas de grãos, suficiente para alimentar mais de um bilhão de pessoas.

Na avaliação de Pillon, a produção alimentar passou por uma transformação desde 1970, com aumento da área cultivada, em 50 anos, de 148%. “A criação da Embrapa é uma decisão absolutamente acertada, que fez muita diferença para esse país. Obviamente a Embrapa não fez isso sozinho, fez isso com muitas parcerias, com as parcerias importantíssimas de todo o sistema nacional de pesquisa agropecuária, destacando papel valoroso especialmente das universidades federais, das organizações estaduais, pesquisa agropecuária e também do próprio setor produtivo, do setor industrial”, completou.

O especialista observou que as mudanças tornaram o Brasil referência para o mundo, não só na agricultura de conservação, mas na adoção do sistema de plantio direto, com quase 40 milhões de áreas cultivadas com esse sistema. “ O crédito foi e segue sendo uma política pública importante, como assistência até a extensão rural, que conecta conhecimento, as tecnologias com o campo, com o agricultor, com os agentes da assistência até a extensão rural. Tivemos um conjunto também de políticas públicas extremamente importantes e decisivas, como o acesso a mercado, os programas de aquisição de alimentos”, afirmou.

Sucessão rural e conectividade no campo

Segundo Pillon, articulação e boa governança também são essenciais para o sucesso da produção. No que diz respeito à sustentabilidade, ele afirmou que a “agricultura pode ser um grande repositório de carbono do planeta, contribuindo para a sua descarbonização”. Ele citou ainda o desafio da inclusão socioprodutiva e digital no campo. “Não há sucessão rural se a gente não tiver conectividade no campo, se a gente não tiver acesso a conhecimento, a gente não tiver acesso à tecnologia, ou seja, a ciência também a serviço da inclusão de pessoas, seja no campo ou na cidade”, avaliou.

De acordo com Pillon, inclusão se faz com o conhecimento, capacitação e formação continuada, além de acesso a mercados a partir do trabalho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “É fundamental o papel da Conab nesse processo. Se não tiver renda o agricultor não vai ficar no campo e renda se faz com comercialização dos seus produtos ou dos seus serviços associados à agricultura”, assinalou. O presidente da Conab, Edegar Pretto, enfatizou a força da pesquisa brasileira e os 435 novos mercados agrícolas conquistados.

“A Embrapa tem uma relevância extraordinária, não só para o campo agrícola do nosso país, mas na segurança alimentar e nutricional, na defesa e na elaboração da pesquisa do nosso país que é reconhecida mundo afora. A Conab e a Embrapa são entidades muito parceiras ao longo de tantos anos”, afirmou. “Nos últimos 10 anos, tivemos um aumento de 87% na produção agrícola do nosso país”, acrescentou.

Soluções tecnológicos para o enfrentamento de eventos climáticos

A pesquisadora Rosane Martinazzo, chefe-adjunta de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa Clima Temperado, que coordena a Plataforma Colaborativa Sul, apresentou os resultados da ferramenta e alertou para o enfrentamento das consequências das enchentes e das mudanças climáticas na Região Sul, que reúne um total de sete unidades da instituição. A plataforma nasceu a partir de um esforço coletivo, no final de 2023, na busca por soluções tecnológicas para o enfrentamento de eventos extremos climáticos.

“Especialmente as estiagens, que era a grande discussão e tem sido nos últimos anos, mas também excessos de chuva, extremos de temperatura que muito afeta a nossa agricultura e, portanto, os alimentos que temos disponível”, afirmou, destacando ainda a importância de parceiros históricos, como universidades, Emater e Serviço Geológico do Brasil.

A especialista afirmou que o foco era caracterizar e quantificar os impactos socioeconômicos trazidos por esses eventos climáticos e propor tecnologias e conhecimentos para esse enfrentamento. Em meio aos trabalhos, no final de abril, ocorreu a enchente no Estado. “E neste momento, esse esforço coletivo voltou o seu olhar para o estado do Rio Grande do Sul. E surgiu, então, o Plano Recupera Rural, coordenado pelo Ministério da Agricultura, por meio da Embrapa e seus parceiros”, completou.

Pesquisas
Durante a audiência foram destacadas as pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Clima Temperado (Pelotas/RS), referência em fruticultura, hortaliças e agroecologia; pela Embrapa Florestas (Colombo/PR), que atua em sistemas florestais e de integração; pela Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS), dedicada ao melhoramento da pecuária de corte e sistemas de produção animal; e pela Embrapa Soja (Londrina/PR), centro de referência mundial na cultura que sustenta grande parte do agronegócio brasileiro.

Também participam a Embrapa Suínos e Aves (Concórdia/SC), responsável por avanços que colocaram o Brasil entre os maiores exportadores globais dessas proteínas, a Embrapa Trigo (Passo Fundo/RS), reconhecida pela excelência no melhoramento genético de cereais, e a Embrapa Uva e Vinho (Bento Gonçalves/RS), que lidera pesquisas em vitivinicultura e fruticultura de clima temperado. A programação encerra com pronunciamentos de autoridades.

Mostra da Embrapa
Paralelamente à audiência, o público pôde visitar, a Mostra de Tecnologias da Embrapa, instalada no saguão do Parlamento. A exposição apresentou ao público inovações, publicações e projetos desenvolvidos pela instituição, promovendo a interação entre ciência e sociedade e destacando a importância da pesquisa agropecuária para o futuro do Brasil. A atividade reforçou o papel da Embrapa como uma das maiores instituições de pesquisa do país e referência internacional em soluções tecnológicas voltadas para a produção de alimentos com responsabilidade social, ambiental e econômica.

Texto: Felipe Samuel e Jean Lazarotto
Fotos: Greice Nichele

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