quinta-feira, 05 março

* Valdeci Oliveira

 

Tem um ditado que preconiza que a dor ensina a gemer. E como geralmente há um fundo – se não um todo – de verdade e sabedoria nos ditos de cunho popular, espero que a condenação, já consumada, daqueles que tentaram um golpe de estado no país sirva, pelo menos, para que futuros aventureiros antidemocráticos pensem bem antes de atentar e agir contra a nação brasileira, a vontade do seu povo e sua soberania.

Com o julgamento encerrado nesta quinta-feira, 11, com os votos da chamada dosimetria, que é a medição, determinação – ou quantidade – dos anos para a pena-base aplicada a condenados após o julgamento dos crimes por eles cometidos, estaremos – espero – presenciando um marco na História republicana brasileira, pois será a primeira vez que algo dessa monta acontece por aqui.

Até então, o que presenciamos enquanto país nos últimos dois séculos foi que, a cada conjunto de décadas – em alguns casos somente poucos anos -, ameaças, tentativas e ações consumadas de ruptura democrática sempre foram ‘resolvidas’ com anistia e perdão total àqueles que manchavam as vestes da nossa até hoje jovem Democracia. E o faziam sempre com o falso argumento de pacificar o país. Qualquer semelhança com a atual conjuntura não é mera coincidência.

Mas ao que tudo indica, o término do julgamento não será o ‘final’ da história, pois a sanha golpista continua respirando, mostrando suas garras, à espreita em cada esquina e cuja uma das últimas materializações foi a invasão das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado federais por apoiadores – incluindo vários gaúchos – da, como vemos hoje, facção criminosa que se apoderou do estado brasileiro entre os anos de 2019 e 2022.

Arrisco a dizer que o término do julgamento dos elementos envolvidos na trama golpista, organizada com requintes de violência que há muito não víamos em nossa seara política, não será, num curto prazo, o fim desta triste ‘novela’. Mais precisamente porque a tampa que começou a ser aberta há pouco mais de uma década – e se mostrou ser uma verdadeira Caixa de Pandora -, exalou o mais putrefato dos odores, liberou os mais sórdidos dos desejos e colocou em prática as mais bestiais formas de violência política, é por demais pesada e precisa de todos os braços disponíveis não apenas para arrastá-la e fechá-la, mas para mantê-la encerrada, trancada.

E somente obteremos êxito se a sociedade ficar e se manter atenta, de olhos e ouvidos abertos, não subestimar as sombras e se manter disposta a construir, com suas diferentes forças políticas e sociais, a concertação necessária que nos permita ‘costurar’ o rasgo feito em nosso tecido social e voltarmos, mesmo que aos poucos, mas de forma contínua, à normalidade democrática que o povo brasileiro deseja, aspira, merece e precisa.

Que esse julgamento, que contou com momentos pitorescos, chocantes e até mesmo com o uso de argumentos difíceis de serem ‘engolidos’ por quem não foi tragado pela ira insana do radicalismo extremo – ou que não se acovarda diante de ameaças e chantagens externas – , sirva de exemplo não apenas ao nosso povo, mas a nações outras que, por conta da importância do Brasil para a América Latina e de sua relevância em assentos dos principais blocos e organismos internacionais, nos olham com expectativa, como se a nossa esperança também fosse a deles.

Que a mensagem a sair desse julgamento, só possível de ser realizado por não estarmos vivendo em uma ditadura e gozarmos de plena liberdade, consolide a prática de convivência com o diferente, com o aceitar o pensamento diverso, com o respeito às nossas instituições e com a defesa inconteste do País, principalmente se ele estiver sob um ataque estrangeiro covarde em forma de sanções e taxações econômicas.

Que a mensagem a sair desse julgamento seja clara àqueles que põem em dúvida nossa soberania, àqueles que defendem única e prioritariamente seus próprios e brutos interesses, àqueles que não medem as consequências criminosas dos seus atos, como se o amanhã não existisse.

Que a mensagem a sair desse julgamento dê o nome aos bois que colocaram em risco a vida de milhares de irmãos e irmãs, que inevitavelmente entrariam em grave conflito caso seu plano fosse bem-sucedido.

Que a mensagem a sair desse julgamento seja clara e inequívoca: o Brasil é dos brasileiros e das brasileiras, nossa Democracia será sempre defendida e a Soberania deste país é irredutivelmente inegociável e nosso direito a ela, inquestionável.

O Brasil é soberano e golpista bom é golpista julgado, condenado e preso.

*Deputado Estadual

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