Halley Lino[1]
A saúde mental tornou-se um dos temas mais urgentes da atualidade, especialmente diante dos eventos traumáticos que marcaram os últimos anos. A pandemia de COVID-19 provocou uma ruptura profunda na vida cotidiana, afetando não apenas a saúde física, mas também o equilíbrio emocional das pessoas, contribuindo significativamente para o aumento dos casos de ansiedade, depressão e outros transtornos psíquicos.
Somando-se a esse processo, o estado do Rio Grande do Sul enfrentou, em 2024 e 2025, uma das maiores tragédias climáticas de sua história. Enchentes devastadoras destruíram cidades inteiras, deixaram milhares de pessoas desabrigadas e causaram perdas irreparáveis. O impacto emocional dessa catástrofe foi imenso. Pesquisas conduzidas por instituições como a UFRGS e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre revelaram que 91% dos entrevistados relataram sintomas de ansiedade, 60% apresentaram sinais de burnout e metade sofre de depressão.
Os relatos são comoventes e revelam uma dor silenciosa que permeia o cotidiano dos gaúchos. Muitos atingidos relatam sintomas como insônia, tremores, náusea, desânimo e ataques de pânico. Crianças e adolescentes também foram profundamente afetados, com casos de ansiedade severa e transtorno de estresse pós-traumático. A rede pública de saúde, embora tenha ampliado os atendimentos, ainda enfrenta dificuldades para oferecer suporte psicológico adequado.
Diante desse cenário, recordei as palavras do Papa Francisco sobre o tema: “A saúde mental não pode ser um privilégio”. Essa afirmação carrega um apelo ético e social profundo. Cuidar da saúde mental é reconhecer a dignidade humana em sua totalidade. É entender que o sofrimento psíquico não é fraqueza, mas uma resposta legítima a experiências traumáticas. É promover uma cultura de cuidado, onde o acolhimento, a escuta qualificada e a solidariedade sejam tão importantes quanto o conhecimento técnico.
Em outras ocasiões, Francisco abordou diretamente temas como a depressão e a tristeza profunda, reconhecendo que essas experiências fazem parte da condição humana e não devem ser ignoradas ou estigmatizadas. “Todos passamos por provações que geram tristeza em nós, porque a vida nos faz conceber sonhos que depois se desfazem”, disse o Papa, pedindo que essa tristeza não se transforme em um estado permanente que impeça a alegria de viver.
A reconstrução do Rio Grande do Sul exige uma resposta conjunta, que envolva governos, instituições, profissionais da saúde e toda a sociedade. Porque, como nos lembra o Papa, cuidar da mente é cuidar da vida.
[1] É Advogado e deputado Estadual pelo PT/RS.

