
Por iniciativa da deputada Sofia Cavedon (PT) a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos debateu nesta quarta-feira (3), sobre os 55 anos do golpe militar de 64 que contou com a participação do ex-preso político e dirigente do Comitê Carlos de Ré da Verdade, Memória e Justiça, Raul Ellwanger, e do ex-deputado Raul Pont, também preso e torturado no período da ditadura militar.
No Rio Grande do Sul, apurou o comitê, há o registro de 41 homens e mulheres mortos e desaparecidos pela violência do Estado, alguns naturais do Rio Grande do Sul e outros de diferentes locais da federação que aqui foram vitimados.
A deputada Sofia Cavedon alertou para o perigo de naturalizar o discurso da negação dos crimes da ditadura militar, “enaltece a violência como regras”, mostrando o exemplo do assassinato de Marielle Franco e as mortes na escola pública de Suzano, em São Paulo, além da violência diária praticada contra as mulheres, os crimes de feminicídio, e contra negros, índios e pobres. “Trata-se de um círculo vicioso que não foi interrompido”, mostrando que os elogios ao período militar reforçam o erro de classificar o risco comunista como a causa principal daquela ação do passado, “a guerra fria foi requentada por quem não quer o avanço da democracia e da justiça social”, afirmou.
Raul Ellwanger destacou o pioneirismo da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha, primeira a ser instalada no país, em 1980, um ano depois do sequestro e prisão dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias com seus dois filhos, por policiais gaúchos para serem levados aos cárceres políticos do Uruguai. Ele comentou, também, o ativismo dos deputados gaúchos que, em 1966, instalaram a CPI das Mãos Amarradas, para apurar as circunstâncias da morte do ex-soldado do Exército Manoel Raymundo Soares, cujo corpo foi encontrado na tarde de 24 de agosto daquele ano, perto da Ilha das Flores, com pés e mãos amarrados. Documentos e o histórico da CPI estão neste link http://www2.al.rs.gov.br/
Sem a verdade surge a intolerância
Manoel Raymundo Soares consta da lista de 41 pessoas que o Comitê Carlos de Ré entregou à Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, como registro de homens e mulheres vitimados pela violência do período militar. Ellwanger também destacou o caso da jovem militante negra Alceri Maria Gomes da Silva, de Canoas, fuzilada em São Paulo pelos agentes do Estado a mando do coronel Brilhante Ustra, ao lado do seu companheiro, cujo corpo nunca foi encontrado. Ele apontou, ainda, o trabalho da Subcomissão da Assembleia que, em 2017, através do deputado Pedro Ruas (PSOL), ouviu depoimentos de presos políticos torturados no Rio Grande do Sul, o que está documentado na publicação Memória, Verdade e Justiça.
“As gravíssimas violações dos direitos humanos não foram devidamente esclarecidas, a memória não é cultivada, a justiça não foi feita”, destacou o ex-preso político, referindo-se aos 21 anos de vigência da ditadura militar, o que “repercute na escalada de violência verificada nas ações da polícia, do judiciário e das instituições atualmente”, dando o exemplo do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, ano passado, “por grupos políticos da zona de sombra” daquele estado. Outra pauta do Comitê, informou Ellwanger, está localizada na Rua Santo Antônio, 600, o Dopinho, prédio onde a polícia praticava os atos de tortura contra os presos, espaço reivindicado por familiares para a construção de memorial das vítimas. Mas é assunto entravada pela burocracia e decisões governamentais, observou.
O ex-deputado Raul Pont, do Partido dos Trabalhadores, disse que sem a revelação da verdade em torno dos crimes praticados pelos agentes do estado, como Brilhante Ustra, “impedem que a sociedade tome consciência da sua história, para o reconhecimento de um erro e pensar o futuro do país”. Sem essa discussão, tornada um “tabu”, na visão dicotômica de “bem” e “mal”, o resultado é a intolerância, como os debates atuais têm direcionado os temas brasileiros, afirmou Pont, alertando para o perigo da negação histórica do que aconteceu no período da ditadura militar. O resultado é que hoje o presidente da República, Jair Bolsonaro, responsabiliza a esquerda pelo nazismo, “isso leva a uma esquizofrenia social”, ponderou. Ele elogiou a iniciativa da CCDH em promover a discussão neste momento do país.
Fonte: Agência de Notícias ALRS

