sábado, 05 setembro

Governo Leite coloca hospitais da Região Metropolitana em risco de colapso

Para avaliar os resultados do Programa Assistir, lançado há pouco mais de dois anos pelo Governo Eduardo Leite, com a intenção de redistribuir os recursos estaduais e federais aos hospitais que prestam serviços pelo Serviço Único de Saúde (SUS) em todo o RS, a Comissão de Saúde, realizou audiência pública, na segunda-feira (4/09), proposta pelos deputados Miguel Rossetto, Adão Pretto Filho e Neri, o Carteiro (PSDB), depois de inúmeros relatos enviados por prefeitos, vereadores e gestores de hospitais, preocupados com um possível colapso do sistema de Saúde em diferentes municípios.

Esperada pelos parlamentares e autoridades presentes, a secretária da Saúde, Arita Bergmann, que havia confirmado presença, desistiu da participação, horas antes do início da audiência.

O Programa Assistir prometia em seu lançamento que dos 218 hospitais aptos a receberem incentivos, 162 teriam acréscimo nos recursos. Na realidade, o Assistir promoveu cortes orçamentários que levaram os hospitais a um quadro caótico. O Hospital de Canoas recebia R$ 49 milhões por ano e vai receber somente R$ 6 milhões do Governo do Estado; o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS) recebia R$ 35 milhões e passará a receber R$ 10 milhões; o Hospital Restinga e Extremo Sul perderá quase R$ 10 milhões dos R$ 13 milhões que recebe; o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas perderá 50% dos recursos estaduais, caindo de R$ 10 milhões para R$ 5 milhões. O município de Montenegro já fechou a traumatologia; Viamão, fechou a maternidade, o setor de saúde mental, a obstetrícia e a traumatologia; Taquara fechou a maternidade. Além da população ficar desassistida, os cortes de recursos na Saúde, acabaram sobrecarregando o atendimento no SUS.

O deputado Miguel Rossetto lamentou a ausência da secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann, que pela terceira vez acertou a presença e não compareceu. “A secretária foi convidada, sugeriu as datas e nós nos adaptamos a elas. Infelizmente este respeito recíproco não apareceu e isso é grave. Quero registrar meu desconforto”, disse. A audiência, disse, dá continuidade a outra realizada em 7 de agosto, na qual a secretária também não esteve presente. “Estamos tratando das consequências de um decreto que institui o programa Assistir.

Para o deputado, o decreto atualizado estabeleceu duas questões: primeiro a manutenção de um calendário de adequação dos recursos estaduais à rede hospitalar gaúcha assistida por este programa. Segundo o deputado, vários hospitais serão desassistidos por este programa e o decreto estabelece uma continuidade da redução de recursos para estes hospitais. O segundo tema é a constituição de um Grupo de Trabalho técnico para avaliar os resultados obtidos pelo Assistir.

Rossetto lembrou que a Assembleia “está entrando num debate sobre o processo orçamentário para 2024 e todos nós na Assembleia temos oportunidade de colaborar para a expansão e qualificação desse atendimento para o RS. Se compararmos os orçamentos executados com variação do IPCA, verificaremos que há uma diferença de orçamento real na ordem de quase R$ 500 milhões. Ou seja, se pegarmos como referência o que o estado executou em 2014 e o que está executando em 2023, verificaremos uma defasagem de quase R$ 500 milhões”, afirmou. O deputado disse ainda que considerando os aumentos dos custos hospitalares o déficit chega a R$ 2,3 bilhões.

O deputado Adão Pretto Filho também manifestou o descontentamento com a ausência da secretária Arita Bergmann e classificou o programa com um “desassistir”, devido aos cortes de orçamento. Pretto citou o Hospital de Viamão que fechou a maternidade da cidade. Para o parlamentar, o programa não acrescentou recursos, mas ao contrário, redistribuiu e reduziu os investimentos do Estado.

“O Programa Assistir não tem um investimento a mais na Saúde. Ele apenas tira de um município e joga para outro hospital, outro município. Que programa é esse, senhoras e senhores? Não é à toa que temos uma audiência tão representativa aqui. O que isso acarreta? A precarização do atendimento, as demissões em massa em hospitais que estão demitindo seus servidores, superlotação de hospitais da Região Metropolitana, como o GHC, por conta da retirada de orçamento de outros hospitais.”

Pretto cobrou a responsabilidade das autoridades do Executivo. “O que está nas mãos do governador, é o sangue da população gaúcha”, denunciou. “Eu escutei de alguns prefeitos, que só não estão aqui hoje, porque são da base do governo, que eles também estão extremamente descontentes com a situação. Eu me somo aqui aos diretores dos hospitais, que estão numa situação muito difícil, com as instituições. Nós vamos pressionar o governo, de maneira muito responsável, para rever o Programa Assistir”

Apresentando uma série de dados técnicos, a diretora técnica da Secretaria Estadual de Saúde, Lisiane Fagundes, argumentou que a mudança foi motivada pela falta de transparência na forma de distribuição de recursos, ausência de critérios técnicos para a definição de incentivos, dificuldade de monitoramento da aplicação do recurso aportado, falta de equidade na distribuição de recursos e hospitais incentivados com a entrega de serviços aquém da remuneração. Segundo ela, 48,54% dos recursos estaduais eram repassados a 7,66% dos hospitais que atendem o SUS. “Temos hoje 301 hospitais. Os recursos estavam alocados em 21 hospitais, muitos da região Metropolitana (de Porto Alegre) ”. A metodologia do Assistir, segundo a diretora, está embasada no “tipo de serviço, na unidade de incentivo hospitalar, no peso e na unidade de referência”, o que permitiria a atualização a qualquer momento.

O prefeito de Canoas, Jairo Jorge lembrou que até 2009, os gestores municipais da Região Metropolitana compravam ambulâncias e mandavam os pacientes para Porto Alegre. Somente depois que o então governador Tarso Genro e o secretário da Saúde, Ciro Simoni, criaram uma rede de proteção na Região Metropolitana, abriram leitos, com transparência e com compromisso de uma política de Estado, o problema se resolveu. Jairo Jorge questionou o corte orçamentário que segundo ele vai fechar o Hospital Universitário e o Hospital de Pronto-Socorro de Canoas. O prefeito de Canoas cobrou auditoria nos números do Programa Assistir.

O prefeito de Nova Santa Rita, Rodrigo Batistella, contou que o município não possui estrutura própria de Saúde e é atendido por Porto Alegre e Montenegro. Desde 2021, segundo o prefeito, a Grampal vem tentado discutir os critérios técnicos, as perdas e readequações do Programa Assistir. Para ele não foram considerados os contratos que já existiam. Batistella pediu a suspensão da retirada de valores dos hospitais da Região Metropolitana. O prefeito criticou a falta de diálogo com os representantes da Secretaria Estadual da Saúde.

O deputado Pepe Vargas ponderou que essa é a terceira vez que o assunto é discutido na Assembleia Legislativa. Na última vez, a secretária não pode participar porque, segundo ela, estaria em uma reunião para justamente discutir o Assistir. De lá para cá, a situação dos hospitais ficou ainda mais dramática. Para Pepe, é compreensível que o programa possa sofrer aperfeiçoamentos. “É desejável inclusive porque há muitos anos o RS tem uma política de complementação de recursos para o sistema único de saúde com recursos próprios. Há mais de 20 anos. O que foi apresentado aqui de tentar construir parâmetros ninguém questiona, mas o problema é que se formos analisar os valores, nos últimos 20 anos, eles ficaram congelados. Tinha em torno de R$ 1,2 bilhão há 10 anos e agora tem R$ 1,3 bilhão. Isso significa um desfinanciamento”. Para Pepe, o estado proporcionalmente está investindo menos e como foram criados critérios, o que acontece é que se está aportando mais recursos em alguns lugares e retirando de outros. “É o cobertor curto. Desvesti uns para vestir outros. E o estado não aceita discutir isso”.

Pepe também disse que é preciso discutir o financiamento do SUS, pois os municípios chegaram a um ponto em que não há como exigir deles mais do que já investem. Quanto à União, disse, nos últimos anos houve um severo corte de recursos. Segundo dados da Associação Brasileira de Economia da Saúde, o SUS perdeu R$ 37 bilhões até 2022 porque deixou de ser aplicado o critério dos 15% da receita corrente líquida da União e passou a ser aplicado o teto de gastos, da “PEC da Morte”.

Não fosse a PEC da transição, observou Pepe, seriam R$ 59 bilhões a menos no orçamento da Saúde, mas o governo Lula após o processo eleitoral fez uma negociação para aportar recursos e conseguiu um freio de arrumação. Pelo novo arcabouço fiscal, o orçamento da saúde da União passa a ser novamente de 15% da receita corrente líquida. Por outro lado, Pepe chamou a atenção para o fato de que o Estado não cumpre a Lei Complementar que determina que invista 12% da receita corrente líquida em saúde. “Por que o governo não apresenta uma proposta de aumentar um pouquinho por ano até chegar aos 12%? Quanto o SUS perdeu nos últimos quatro anos pelo fato de não ser aplicado os 12% conforme determina a Lei Complementar 141? É mais de R$ 4 bilhões”.

A falta de transparência e a subjetividade dos critérios do Programa Assistir foram apontados pela deputada Stela Farias. A parlamentar questionou quais critérios de aplicação dos recursos, quais as dificuldades, que são apontadas, mas nunca descritas. Para a deputada foi retirado recursos de hospitais da Região Metropolitana que atendem média e alta complexidade e cobre quase 40% do total da população gaúcha. “Tenho todo o acordo com a regionalização, mas ela tem que ter bom senso, clareza, transparência e dizer o porquê das coisas. Os prefeitos não foram ouvidos. O Assistir não deu certo, ele piorou e retirou o atendimento!”

O deputado Miguel Rossetto, nos encaminhamentos da audiência pública, cobrou a constituição do Grupo de Trabalho para qualificar o sistema de saúde hospitalar na Região Metropolitana, que já está previsto há mais de dois meses e não se efetivou. “Nós estamos aqui defendendo todos os instrumentos de qualificação de oferta de um sistema de serviço hospitalar para todo o povo gaúcho.”

Rossetto defendeu ainda que a Assembleia Legislativa não assine o Plano Plurianual, diante da redução dos recursos estaduais para o sistema hospitalar do Rio Grande do Sul. “Nós estamos falando em R$ 500 milhões/ano de recursos do Estado do RS estão sendo retirados. Será que somente com a eficiência desses recursos reduzidos, nós atenderemos a demanda da população gaúcha?

 

Assessoria de Imprensa

PTSul – Bancada do PT

Assembleia Legislativa RS
telefone (51) 3210.1123

Texto: Adriano Marcello Santos e Claiton Stumpf – MTb 9747
Fotos: Joaquim Moura

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