Seria irônico não fosse triste ver uma cidade como a nossa Santa Maria, universitária, estudantil, ligada à pesquisa, ao conhecimento e à formação, sofrer um duro golpe em sua educação pública. Com o anúncio do governador Eduardo Leite de privatizar parte significativa da gestão das escolas da rede estadual, Santa Maria deverá ter oito das suas unidades repassadas para a iniciativa privada por um período de 25 anos. O custo inicial aos cofres do estado, que inclui a entrega de outras 90 espalhadas pelo RS, chega a R$ 4,5 bi – ou R$ 154 mil mensais a cada uma. Essas instituições jamais receberam esse montante do governo para sua manutenção, qualificação e ampliação. Mas eis que, para gerar lucro privado, o dinheiro brota.
Esse plano não é novo, mas só em 2024 o governador o tirou da cartola, sendo impedido pelo Tribunal de Contas de levá-lo adiante por, entre outras “derrapagens”, não comprovação de vantagens para a sociedade gaúcha. Com a liberação pelo presidente do Tribunal, a insanidade do lucro acima de tudo – como feito com as nossas água, energia, estradas e parte da saúde – voltou à baila, mesmo saindo mais caro.
Quem abocanhar o negócio contará também com cláusulas de reajuste, remuneração garantida e custos de financiamento assumidos pelo poder público. Negócio de pai para filho, para dizer o mínimo.
Em Santa Maria, o descalabro recairá sobre as escolas Padre Caetano, Professora Maria Rocha, Olavo Bilac, Cícero Barreto, Santa Marta, Dom Antônio Reis, General Gomes Carneiro e Marechal Rondon.
A visão do governador e daqueles que o bancam na seara política, de que a educação nada mais é que um negócio para direcionar recursos públicos diretamente para os bolsos do setor privado, mostra-se também na forma como será feito o processo: num leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, junto com a negociação de títulos da dívida pública, a compra e venda ações e de commodities como soja, petróleo e minérios.
Assim, o primeiro dos direitos sociais garantidos pela nossa Carta Maior muda de roupa. E não precisa ser muito esperto para se dar conta de que, quando a educação pública se torna mero ativo financeiro, os desejos do capital ficam acima dos interesses da comunidade escolar, transformando a educação em mera mercadoria.
Barrar mais esse ataque do governador ao estado e ao direito da população precisa ser o centro de uma ação coletiva, unindo parlamento, sociedade civil e comunidade escolar.
Definitivamente, educação não rima com lucro.
Deputado estadual Valdeci Oliveira
Artigo publicado originalmente em 29 de maio de 2026 no site da AL
Foto: Charles Scholl

