A pergunta que ecoa nos corredores das embaixadas e nas mesas de negociação internacional não é mais apenas sobre alinhamento ideológico, mas sobre uma questão fundamental de sobrevivência política: quem, afinal, pode confiar em Donald Trump? A trajetória do ex-presidente no cenário global não foi marcada apenas por uma mudança de estilo, mas por uma ruptura sísmica na forma como o poder é exercido.
Quando o mundo ouviu frases estarrecedoras sugerindo a aniquilação total de civilizações, o que se sentiu não foi a força de uma liderança estratégica, mas o peso de uma ameaça que flerta abertamente com o conceito de crime contra a humanidade. Não se trata apenas de retórica inflamada; trata-se de uma grave irresponsabilidade histórica. Declarações que evocam a destruição em massa, ainda que previsivelmente além do campo diplomático, operam em uma esfera de alto risco: mesmo quando usadas como intimidação, produzem instabilidade real, alimentam mercados de guerra e colocam milhões de civis como reféns da imprevisibilidade política.
Essa postura de confronto direto e desrespeito à soberania manifestou-se de formas trágicas em episódios de tensão internacional, como no bombardeio autorizado por Trump que atingiu uma escola no Irã recentemente, onde o custo humano revelou o lado mais sombrio de uma política externa unilateral. O que está em jogo sob tal liderança não é apenas o domínio regional, mas a erosão sistemática do direito internacional. Ao ignorar as fronteiras da diplomacia tradicional, a administração Trump enviou uma mensagem clara de que a soberania de uma nação só existe enquanto não colidir com os interesses imediatos de Washington, corroendo os próprios alicerces que sustentam o sistema internacional.
Para sustentar essa hegemonia, o uso de taxas econômicas, embargos e sanções foi elevado ao status de doutrina de política externa. O endurecimento do embargo a Cuba, que asfixiou a entrada de recursos básicos na ilha, e a aplicação repentina de taxas sobre o aço e o alumínio do Brasil demonstram como essas medidas funcionam como armas silenciosas. Embora não explodam, elas estrangulam economias inteiras e aprofundam crises sociais severas.
Esse modelo agressivo transformou o comércio global em um campo de batalha, onde o acesso aos mercados passou a ser condicionado à submissão política. Quando tarifas são utilizadas não para proteger o trabalho local, mas como uma ferramenta de “guerra fria econômica” para dobrar nações adversárias ou pressionar aliados históricos como o Brasil, o comércio deixa de ser um instrumento de cooperação. O resultado inevitável é um mundo mais fragmentado, menos previsível e perigosamente polarizado, forçando até mesmo parceiros tradicionais a um estado de constante alerta.
Diante desse cenário de beligerância, a resistência buscou refúgio na autoridade moral e nas instituições multilaterais. O Vaticano e a ONU tornaram-se redutos de defesa contra o isolacionismo, reiterando que a paz não pode ser construída sobre o medo da aniquilação ou sobre a ruína econômica de populações inocentes, afetadas por sanções indiscriminadas.
Em um sistema onde a palavra empenhada é substituída pelo uso da força financeira ou militar, o legado deixado é o de um mundo temeroso. A história nos ensina que impérios caem e presidentes passam, mas as consequências da violência e da coerção permanecem. O verdadeiro sinal de força de uma nação não reside em sua capacidade de destruir ou sancionar, mas em sua disposição de proteger a vida, o diálogo e o direito fundamental dos povos de existirem sem medo.
Advogado e deputado Estadual pelo PT/RS.

