quarta-feira, 03 junho

O episódio registrado no campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), em que estudantes criaram um “ranking de estupráveis” envolvendo alunas menores de idade, não pode ser tratado como um fato isolado. Assim como o caso semelhante ocorrido em uma escola particular de São Paulo onde alunos organizaram um grupo de WhatsApp com o mesmo objetivo, esses acontecimentos revelam a presença de um fenômeno mais amplo e cada vez mais presente entre adolescentes: a influência do movimento redpill.

A repetição de práticas praticamente idênticas em contextos diferentes evidencia que não estamos diante de coincidências. Trata-se da mesma lógica de desumanização sendo reproduzida por jovens expostos a conteúdos misóginos que circulam livremente nas redes sociais. O redpill, parte da chamada machosfera, difunde uma visão baseada na hierarquia de gênero, no ressentimento e na objetificação de mulheres.

Pesquisas internacionais mostram esse retrocesso. Um levantamento da Ipsos em parceria com o King’s College London apontou que 31% dos homens da Geração Z concordam que a esposa deve obedecer ao marido, índice superior ao de gerações anteriores e que demonstra uma reaproximação de valores abertamente machistas.

Nesse cenário, episódios recentes de violência ganham novo significado. Em um caso de estupro coletivo que repercutiu nacionalmente, um dos acusados se apresentou à polícia vestindo uma camiseta com a frase “Regret Nothing” (“não se arrependa de nada”). A expressão é amplamente difundida em comunidades da machosfera e associada a influenciadores como Andrew Tate, investigado por crimes como estupro, tráfico de pessoas e exploração de mulheres. Usar esse símbolo não foi um ato aleatório, mas um gesto revelador da internalização de um sistema de valores que relativiza a violência sexual e reafirma uma cultura de dominação sobre o corpo feminino.

A criação de rankings que classificam meninas como possíveis vítimas de estupro é a materialização desse pensamento. Isso não é “brincadeira de mau gosto”: é violência simbólica e psicológica, objetificação extrema, conversão do corpo feminino em alvo de avaliação, controle e principalmente poder masculino.

Os dados reforçam a gravidade do problema. Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o Brasil registra, em média, 15 casos de estupro coletivo por dia, a maioria envolvendo meninas e adolescentes. Ou seja, a mesma população que consome conteúdos redpill é aquela mais afetada por essa cultura de violência. Não estamos diante de desvios individuais, mas da reorganização de uma cultura de violência de gênero mediada por algoritmos, potencializada por plataformas que lucram com engajamento e pouco fazem para conter discursos de ódio.

Diante disso, o avanço da misoginia tem provocado respostas institucionais. O Senado Federal aprovou o Projeto de Lei nº 896/2023, que criminaliza a misoginia no Brasil, definindo-a como ódio, aversão ou desprezo contra mulheres e incluindo essa prática na Lei do Racismo. Dessa forma, atos de incitação, discriminação ou violência motivados por misoginia passam a ser punidos com pena de reclusão e multa.

Entretanto a responsabilização penal, embora necessária, não basta. É preciso compreender que existe uma estrutura em funcionamento, que conecta os casos de Pelotas e São Paulo a um ecossistema digital perigoso e crescente. Enfrentar essa realidade exige políticas públicas de prevenção, educação para igualdade de gênero, combate à desinformação e, principalmente, ações diretas contra os conteúdos e plataformas que promovem e lucram com misoginia.

O que está em jogo não é o comportamento isolado de alguns jovens, mas a consolidação de uma cultura que normaliza a violência contra mulheres. Tratar esses episódios como exceções é ignorar que eles são sintomas de um processo mais profundo e em plena expansão.

* Deputado estadual do PT/RS
Foto: Charles Scholl

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