quinta-feira, 05 março

 

Valdeci Oliveira * 

Parece um pesadelo que não tem fim. Um pesadelo que, diferentemente da experiência mental que nos chega durante o sono, em forma de aflição, é real, palpável, que produz dor, morte, medo e injustiça. Um pesadelo que está à espreita na esquina, no local de trabalho ou em qualquer peça da casa.

Um pesadelo que desumaniza e culpa a vítima, mas também desnuda a inoperância dos órgãos responsáveis e evidencia o caráter estrutural e normalizado da violência contra mães, esposas, namoradas. No mês do Dia Internacional da Mulher, elas irão à luta – que é diária, não cessa -, ocuparão as ruas para além da óbvia necessidade de igualdade de salário, condições de trabalho e atuação política.

Irão às ruas por um cotidiano que lhes garanta o direito dos direitos, aquele que lhes assegura a vida, o existir. A cada 6 horas uma mulher é morta no Brasil. A cada 6 minutos uma mulher é estuprada. O número de feminicídios no Rio Grande do Sul foi de 80 casos em 2020; 97 em 2021; 111 em 2022; 85 em 2023; 73 em 2024 e 80 em 2025.

Do total de vítimas, 73,8% tinham filhos. Somente nesse período essa prática machista deixou 116 órfãos no Estado. E mal começamos 2026 já temos duas dezenas de vítimas, o que coloca o RS no topo em relação a seus vizinhos da Região Sul. Mas isso parece não ser suficiente. Se fosse, teríamos delegacias especializadas em todo o Estado, elas funcionariam 24 horas por dia e não ouviríamos do governador que se for preciso ele aumentará a estrutura.

Se for preciso? Quando? É sério isso? Não bastasse, o chefe do Executivo estadual diz que o problema maior não é a inexistência de ações efetivas – monitoramento de agressores, acolhimento seguro às vítimas, patrulhas Maria da Penha, entre outras -, mas a falta de coragem das próprias mulheres em denunciar ou porque não identificam a tempo o perigo que mora junto.

O pesadelo, que está mais para uma epidemia, onde os homens são a doença infecciosa, é real ao ponto de uma denúncia de estupro coletivo, perpetrado por cinco jovens contra uma menina de 17 anos, no Rio de Janeiro, não ser tratada como urgente pelo Plantão Judiciário. O caso acabou sendo enviado à vara de violência doméstica.

Na esteira dos procedimentos erráticos, os pedidos de prisão foram emitidos quase um mês depois. Chega. É preciso darmos um basta, não lavarmos as mãos, não olharmos para o lado, não menosprezarmos os sinais ou fazermos de conta que o problema não é nosso. Em briga de marido e mulher, todos temos a obrigação de metermos a colher.

 
 
* Deputado estadual
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