quinta-feira, 05 março

 

 

A rotina de quem vive ao volante ou sobre duas rodas, conectada a um aplicativo, raramente tem pausa. São horas seguidas de trabalho, pressão por boas avaliações e a incerteza sobre quanto virá no fim do mês. Diante dessa realidade, o deputado Pepe Vargas apresentou na Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 40/2026, que cria a Semana Estadual de Promoção à Saúde dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Aplicativos, a ser realizada anualmente na última semana de maio.

A proposta prevê mutirões de atendimento com serviços como aferição de pressão arterial, testes de glicemia, avaliações oftalmológicas, orientação nutricional, suporte psicológico, orientações ergonômicas e ações específicas voltadas à saúde da mulher. O objetivo é enfrentar a vulnerabilidade social e os problemas de saúde que atingem motoristas e entregadores de plataformas digitais.

Hoje, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de pessoas atuando por meio de aplicativos. No Rio Grande do Sul, são aproximadamente 100 mil trabalhadores nessa modalidade, número que cresce de forma significativa, especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre e em polos regionais.

 

Prevenção e cuidado

O projeto protocolado pelo deputado Pepe prevê ações de conscientização sobre os riscos de doenças ocupacionais e psicossociais que fazem parte do cotidiano da categoria, além de garantir o diagnóstico precoce de doenças crônicas. “É fundamental prevenir agravos à saúde física e mental causados pelas longas jornadas e pelo modelo de gestão algorítmica”, afirma o parlamentar. Ele ressalta ainda a importância de fortalecer a atenção integral à saúde das mulheres que trabalham por aplicativos, reconhecendo as especificidades e vulnerabilidades que atravessam a experiência feminina nesse setor.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que trabalhadores por aplicativo cumprem, em média, 5,5 horas a mais por semana do que os demais ocupados no setor privado, frequentemente ultrapassando 10 horas diárias. A jornada extensa, o tempo prolongado sentado no caso dos motoristas e o esforço físico sob sol, chuva e frio no caso dos entregadores contribuem para uma série de problemas de saúde.
Longas jornadas e da pressão algorítmica
A presidente do Sindicato dos Motoristas de Transporte Individual Por Aplicativo do Rio Grande do Sul (Simtraplirs), Carina Trindade, relata que a categoria trabalha horas acima da média da população, mas nem sempre vê esse esforço refletido na renda mensal. A instabilidade financeira, o endividamento e o cansaço acumulado acabam levando ao esgotamento físico e emocional. Para ela, o projeto é essencial para estimular o cuidado com a saúde e incentivar a busca por acompanhamento médico regular da categoria que está adoecida. “Hoje as empresas de aplicativos chegam a reter 40% do valor da corrida, e o motorista precisa calcular os custos com manutenção, seguro e gasolina. Cerca de 30% deles alugam o carro para trabalhar e, muitos, acabam pegando empréstimos com as próprias empresas de aplicativo para pagar o carro. Com dívidas altas, dobram a jornada de trabalho e os problemas de saúde aparecem, principalmente, a depressão”, conta a presidente.
Além da depressão e síndrome de burnout, as queixas mais frequentes são dores lombares e cervicais e ansiedade. A privação de sono, entre quem atua à noite, e a pressão constante por desempenho também aumentam o risco de acidentes.
Com a instituição da Semana da Saúde, Pepe Vargas busca assegurar à categoria o acesso a, pelo menos, uma revisão médica anual. A proposta reconhece que a jornada intensa e prolongada dificulta que esses trabalhadores procurem atendimento, já que interromper o trabalho significa abrir mão de uma renda que, muitas vezes, já é insuficiente. O projeto agora segue na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa.

 

Texto: Silvana Gonçalves 

Foto: Divulgação

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