A Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, em conjunto com a Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo realizarão uma audiência pública conjunta para apurar as circunstâncias da ação policial que resultou na morte do agricultor Marcos Nörnberg, na madrugada de 15 de janeiro, e cobrar explicações das autoridades estaduais. A ideia é chamar para essa audiência representantes do governo do Estado, da Casa Civil, da Secretaria de Segurança Pública do RS, do comandante-geral da Brigada Militar, do Ministério Público, de entidades de direitos humanos e especialistas para que prestem esclarecimentos sobre a operação e os protocolos usados pela polícia.
Na reunião da Comissão desta quarta-feira (11/02), a esposa do agricultor, Raquel Nörnberg relatou que na noite de 15 de janeiro a família foi acordada, às 3h, com tiros e a casa sendo invadida.

Segundo Raquel ela foi impedida de sair de casa e foi torturada e obrigada a permanecer ajoelhada por 1h30min em cima dos cacos de vidro. “Eles não entraram com viaturas, entraram atirando e gritando que eram policiais, mas para mim, eram bandidos. Eu só via os pés e não olhava para eles porque para mim eram bandidos e eu tinha medo de ser morta. Mesmo que eu tivesse visto as fardas, também não acreditaria que eram policiais”, relatou.
A viúva ainda recordou que após os tiros, a BM sabia que ela não era uma criminosa e questiona porque o Samu chegou com as sirenes desligadas e porque não lhe deram atendimento médico já que ela estava toda machucada. Emocionada, Raquel lembrou que o marido morto era uma pessoa boa e nunca esteve relacionado com o crime. “Parece hipocrisia dizer isso porque todo mundo que morre ‘vira santo’, mas meu marido era um homem bom e trabalhador, que largou um emprego de mais de 20 anos em um grande grupo (empresarial) em Caxias do Sul para voltar para Pelotas e cuidar do pai doente”.
Para Raquel, se os policiais agiram com autorização, o comando da Brigada Militar é mais culpado ainda. “Por isso eu espero que se investigue e se tome providências, pois se os policiais tivessem câmeras corporais, essa ação nem teria sido feita. Acredito que o exame toxicológico aleatório (na corporação) também é muito importante que seja adotado”, argumentou, lembrando que a família criou um abaixo-assinado pelo uso obrigatório de câmeras corporais pela corporação. Segundo a viúva, o objetivo é alcançar pelo menos 100 mil assinaturas.
Para a deputada Bruna Rodrigues, ao passo que o caso foi se tornando público, foi ficando também mais assustador, pois demonstra que o cidadão não pode mais ter paz. “O discurso do bandido bom é bandido morto faz com que nenhum trabalhador ou trabalhadora fique em segurança: a prática da tortura tem sido utilizada como método, e isso não pode continuar”, sustentou, defendendo que a CCDH, junto com as forças de segurança, elabore um protocolo, e que encaminhe um pedido para que o Comando Militar tenha que responder.
O presidente da Comissão, deputado Adão Pretto garantiu que o colegiado está acompanhando e continuará cobrando do Comando Militar explicações sobre este e outros casos de violência. “Não aceitaremos tamanha violência. O Estado e o Comando são responsáveis”, afirmou, anunciando que a CCDH realizará conjuntamente com a Comissão de Agricultura uma audiência pública em Pelotas para ouvir o novo Comando da Brigada Militar “para que este fato não seja esquecido e que tenha Justiça plena.
Também participaram da reunião da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos a deputada Laura Sito e o deputado Pepe Vargas.
Texto: Claiton Stumpf
Fotos: Kelly Demo Christ

