quinta-feira, 05 março

* Valdeci Oliveira 

 

Em tempos estranhos como este que vivemos, em que a força bruta tenta se sobrepor ao debate de ideias, que o som de mísseis caindo sobre uma população indefesa sufoca os pedidos de paz e os gritos de dor, e em que a nossa soberania é subjugada por nação estrangeira a pedido de falsos patriotas, entre outros absurdos, ouvir as palavras do presidente Lula no mais importante palco da política mundial, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), é um bálsamo aos nossos ouvidos, aspirações e esperança.

Em tempos de “tiro, porrada e bomba’, a fala daquele metalúrgico, que nos livrou da continuidade do fascismo institucionalizado no estado brasileiro, é um alento, uma ode ao humanismo cada vez mais rarefeito e que transforma as sociedades em um amontoado de brutalidades e pessoas carentes por justiça, autodeterminação e igualdade de direitos.

Lula foi a Nova Iorque abrir, como é de praxe, a reunião anual da Organização, cuja missão, conforme sua carta de fundação, é ‘a manutenção da paz e a segurança internacional, com o desenvolvimento de relações amigáveis entre as nações, a promoção do progresso social, a criação de melhores condições de vida e a promoção dos direitos humanos’. E Lula não se afastou um milímetro sequer dessas diretrizes, não porque estão no ‘regimento’ do anfitrião, mas também porque ele próprio pensa desta forma.

Sindicalista forjado a duras penas na difícil arte de negociar, num momento que não se podia sequer pensar em olhar ‘atravessado’ para quem estava no poder, a participação do presidente brasileiro antecederia a fala de seu congênere estadunidense, o mesmo que vem impondo ao Brasil e aos brasileiros uma insana aplicação de taxas econômicas e sanções políticas como se nós continuássemos a ser o quintal do ‘irmão rico do norte’.

Ao dizer que o autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente a arbitrariedades e que forças antidemocráticas, em diferentes lugares do mundo, cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais e cerceiam a imprensa, Lula estava dando o recado de que, mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil escolheu resistir ao invés de capitular. O Brasil escolheu defender sua democracia a entregá-la a quem não a honra, democracia esta ainda muito jovem desde que foi reconquistada pela última vez, há quarenta anos, pelo seu próprio povo, organizado, nas ruas, depois de muito sofrimento, lágrimas e duas décadas de ditadura civil-militar.

Ao dizer, em alto e bom som, aos representantes dos mais de 140 países-membros de que não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia, de que a agressão – interna e externa – contra a independência do Poder Judiciário brasileiro é inaceitável e de que não há pacificação com impunidade, aquele pernambucano que teimou em ir contra os prognósticos da vida, e que fará 80 anos dentro de um mês, mostrou altivez, não baixou a cabeça e lavou a alma de milhões de brasileiras e brasileiros. E nas suas próprias palavras, também um aviso a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam, a de que a nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.

Naqueles poucos mais de 20 minutos, Lula lembrou ainda que a democracia, seja onde for, falha também quando as mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros, quando ela fecha suas portas e culpa migrantes por todas as mazelas existentes no mundo, que a pobreza é tão inimiga quanto o extremismo e que as redes sociais não podem ser terreno fértil e livre para intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação.

Ao defender o direito a existência do povo palestino, vítima de um massacre que somente é possível porque conta com a cumplicidade daqueles que tem força e poder para evitá-lo, demonstrou admiração pelos judeus que se opõem àquele genocídio. E usou o momento para lembrar dois homens ilustres que nos deixaram em 2025 e encarnaram como poucos, durante suas vidas, os melhores valores humanistas: o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica e o Papa Francisco.

Os temas foram inúmeros, como convém a um verdadeiro estadista, como convém a quem olha para além do seu próprio umbigo, com convém a quem defende um mundo multipolar, mais justo, mais humano, como convém a quem acredita e defende que o sol é para todos, que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade, chagas que são, devem ser eliminadas, mas que a derrota chega para quem aceita a injustiça de bom grado.

Ao falar na ONU, com recados e opiniões claras, Lula angariou elogios e reconhecimento não apenas no Brasil, mas mundo afora, incluindo o até aqui principal algoz do nosso país, o presidente estadunidense Donald Trump, que pela primeira vez aceitou sentar à mesa e negociar suas tarifas e sanções.

Em tempos onde a moda é ser cruel, com o darwinismo social buscando se impor, ouvir Lula na ONU nos mostra que sim, existe luz no fim do túnel e que ela não é a do trem vindo em nossa direção, mas da esperança por dias melhores.

 

 

Deputado estadual, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul 

 
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