quinta-feira, 05 março

 

Valdeci Oliveira *

 

O Brasil que esta semana emergiu da Câmara dos Deputados é aquele que poderia ser definido como exemplo prático de uma frase elaborada, no século passado, pelo psiquiatra Carl Jung. Mesmo centenária, atualíssima, principalmente no nosso caso. E sequer é preciso se aprofundar nas teorias ou conceitos psicológicos desenvolvidos pelo discípulo de Sigmund Freud para entender seu significado: tudo aquilo que não enfrentamos em vida acaba se tornando o nosso destino.

Assim, a depender do desenrolar dos acontecimentos, caso parte significativa da classe política não tenha mais sequer um pingo de respeito pela sociedade brasileira, o Brasil – com suas elites à tiracolo – mostrará que está a caminho de cumprir a profecia de Jung e fadado novamente a não enfrentar seus desafios e jogar para debaixo do tapete suas sujeiras, assim como os esqueletos que repousam dentro do armário chamado ética. E não se trata da opinião do Joãozinho do passo certo , mas de uma triste e preocupante constatação, a de que os apetites de pequenos grupos estão acima das verdadeiras necessidades do povo brasileiro e dos interesses do país. A legitimidade de tal postura estaria no fato de que aqueles homens e mulheres teriam sido eleitos pelo voto direto de milhares de outros homens e mulheres – o que é verdade -, e isso lhes garantiria, pelo raciocínio canhestro, salvaguarda até mesmo para tais excrescências. E dizer que isso faz parte do jogo democrático é dourar a pílula, é passar pano em algo que nunca poderá ser limpo.

Com a aprovação da PEC da Blindagem – ou da Bandidagem, como está sendo chamada – pelos deputados federais, para tirar parlamentares do alcance da longa mão da justiça , e com o aval para dar prosseguimento a um projeto de redução de penas que funciona como uma anistia a criminosos envolvidos em tentativas de golpe de estado, assassinato de autoridades, além de bombas em aeroportos, derrubada de torres de transmissão de energia, no melhor estilo tocando o terror , caminhamos para mais um retrocesso em nossa História contemporânea.

As duas matérias, se é que podemos simplesmente chamá-las assim, confirmam o óbvio, de que o corporativismo e a impunidade continuam – como em eventos passados – a andar de mãos dadas pelos corredores e gabinetes de Brasília, de que o Centrão e a extrema-direita têm lá seus bandidos de estimação e que a temporada aberta no Planalto Central é do melhor estilo liberou geral . O que também prova que o ex-deputado Ulisses Guimarães estava certo quando disse a um interlocutor que o questionava quanto a qualidade dos seus pares: “Se você acha esse Congresso ruim, espere até o próximo”.

Caso as propostas venham definitivamente a ser aprovadas também no Senado Federal, o dito de Carl Jung passa a ser, no caso Brasileiro, não apenas uma constatação elaborada por um dos maiores pensadores e formuladores da psicologia mundial, mas uma espécie de maldição a nos acompanhar. Com elas veremos, num futuro bem próximo, além da perpetuação de práticas nada republicanas, a exacerbação do que assistimos hoje, mas desta vez no modo Deus nos acuda . E se dará em relação à destinação e aplicação de emendas parlamentares, ao tráfico de influência, à compra de votos em eleição e a uma série de outros crimes – nenhum deles inéditos ou estranhos ao cotidiano dos nossos legislativos -, que precisarão de ordem especial, em voto secreto, para que venham a ser investigados.

Com isso, diferentemente dos meros e pobres mortais , nossos nobres parlamentares terão ampliadas consideravelmente as proteções legais, dificultando – ou até mesmo impossibilitando – a prisão e a abertura de processos criminais contra eles próprios. Chega a ser paradoxal, uma vez que o respeito a tão nobres funções da nossa República é constantemente colocado em xeque pelos próprios ocupantes dos mandatos. Ao fim e ao cabo, para a população atenta, quem propõe e aprova tal proposta teme investigações presentes e futuras.

No caso da anistia, a maldição tomará forma como uma repetição avalizada da História da política nacional, onde, desde a proclamação da nossa República, aqueles que tentam, conspiram ou concluem a derrubada de governos legalmente eleitos são perdoados para anos depois voltarem ao local do crime e tentarem nova investida, como aconteceu em 1964, cujo DNA dos participantes foi encontrado em diversos episódios semelhantes décadas antes. A pergunta retórica – aquele tipo que dispensa resposta – que não quer calar é se a pacificação’, tão apregoada pelos defensores da proposta, não deveria vir do cumprimento das leis, da Justiça sendo aplicada e dos discursos e atos de racismo, misoginia e de viés antidemocráticos sendo jogados na lata do lixo.

O que vimos nesta semana no Congresso Nacional, são pautas que servem a interesses próprios, de forma deslavada e cínica. Se fosse um filme, seria uma fita pastelão, que, na cena da torta, quem a recebe na cara é o povo, as instituições e o senso de justiça.

 

*Deputado Estadual 

 

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