quinta-feira, 05 março

Uma decisão da Justiça gaúcha suspendeu temporariamente o uso do herbicida hormonal 2,4-D em todo o Rio Grande do Sul. A medida, assinada pela juíza Patrícia Antunes Laydner, da Vara do Meio Ambiente, responde a uma preocupação antiga de agricultores e pesquisadores: a deriva da substância, capaz de atingir plantações até 30 quilômetros de distância e que está causando prejuízos e colocando em risco culturas sensíveis como uva, maçã, oliveiras e nozes-pecã.

Regiões como a Campanha e Campos de Cima da Serra registram perdas milionárias nos últimos anos em decorrência do uso abusivo de herbicidas hormonais nas lavouras. A suspensão deverá ser mantida até que o governo do Estado estabeleça zonas de exclusão ou implemente um sistema de zoneamento e fiscalização efetivos. O prazo dado pela magistrada é de 120 dias. Na última semana, a Assembleia Legislativa já havia avançado no debate ao apresentar o relatório final da Subcomissão dos Herbicidas Hormonais, vinculada à Comissão de Agricultura.

O documento recomenda medidas como a definição de zonas de exclusão e amortecimento, criação de um vazio sanitário específico para herbicidas hormonais, além da formação de um comitê de monitoramento da deriva e de um sistema estadual de alertas preventivos sobre condições climáticas de risco. Para o deputado Adão Pretto Filho, vice-presidente da subcomissão, a decisão judicial confirma a necessidade de uma mudança de rumo na agricultura gaúcha.

“Se nada for feito, corremos risco de extinção da fruticultura aqui no Rio Grande do Sul a médio prazo. A cultura da soja é muito importante para a nossa economia, mas não podemos defender somente a produção de soja, não podemos depender da monocultura. É possível produzir soja e arroz sem o uso de herbicidas hormonais, por meio de bioinsumos. O governo do Estado precisa ser indutor e promover a transição agroecológica. A decisão da juíza de suspender o uso do 2,4-D vai ao encontro do que estamos defendendo. Não é opinião radical, é a ciência que nos mostra a necessidade de diminuir o uso desses herbicidas”, afirmou.

O parlamentar destacou que a decisão da Justiça abre caminho para que o RS lidere uma transição agroecológica, equilibrando a produção de grãos com a proteção da fruticultura e de outros cultivos estratégicos para a economia e para a saúde alimentar da população. “Entendemos que não podemos ser reféns da monocultura. A diversidade e qualidade do que é plantado estão diretamente ligadas à segurança alimentar da população e manutenção da agricultura familiar. Precisamos avançar com uma agricultura sustentável”, concluiu Pretto.

Texto: Guilherme Zanini
Foto: Kelly Demo Christ

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