Ao desembarcar na Serra gaúcha, o 6º Seminário Regional do Fórum Democrático (FDDR) da Assembleia Legislativa do RS (ALRS) chegou em Caxias do Sul, nesta sexta-feira (15), para debater com a população da Região Funcional RF3 (Cima da Serra, Hortênsias e Serra) as peculiaridades para produzir com sustentabilidade nas localidades.
A atividade ocorreu das 8h30 às 12h30, no auditório do Bloco J da UCS (Universidade de Caxias do Sul), e teve como integrantes da mesa de honra o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Pepe Vargas (PT), o reitor da UCS, Gelson Rech; o presidente do Corede Campos de Cima da Serra Adair Adams; o presidente do Corede Serra, Evaldo Cuiava, e o secretário do Meio Ambiente de Caxias do Sul, Ronaldo Boniatti.
O encontro contou com a presença de representantes da sociedade civil como organizações de classe, empresariais, educacionais, políticas e movimentos populares, além do público em geral. A atração cultural na abertura apresentou o músico Dan Ferretti, que, com voz e violão, mesclou repertório próprio com sucessos da MPB. Compareceram ao evento os deputados Guilherme Pasin (Progressistas), Carlos Burigo (MDB), Neri, o Carteiro (PSDB), e Elton Weber (PSB). A mediadora das conferências foi a jornalista Rosane de Oliveira.
Natural da cidade, Pepe Vargas abriu a programação destacando o Pacto RS 25 – O crescimento sustentável é agora, que é o lema de sua gestão (2025-2026) à frente do parlamento gaúcho. Pepe lembrou a trajetória histórica do Fórum e suas atividades neste ano. Reafirmou que o RS necessita pensar a reconstrução do estado a partir de novos paradigmas sustentáveis para voltar a ter destaque de sua participação na economia da Região Sul e do país.
Pepe citou também que a região é pujante em economia familiar, na produção de hortifrutigranjeiros e na relação com fluxos migratórios. Para o presidente do legislativo, a indústria diversificada da região precisa se adaptar para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. “Essa diversificação produtiva é fundamental para o aumento da renda per capita e da incorporação de tecnologia, o que favorece a sustentabilidade ambiental. No entanto, entre os desafios, está a necessidade de ampliação de investimentos em infraestrutura, salientou.
O coordenador do Fórum Democrático, Ronaldo Zulke, mencionou a programação e a sistemática do Fórum. Observou que as discussões podem ser presenciais ou por meio da Plataforma Digital de Participação Social, uma parceira com o Governo Federal. O assessor técnico, Tarson Núñez, explicou o funcionamento da Plataforma, instrumento que usa tecnologia em código aberto e, além de viabilizar a seleção e votação de propostas, também caracteriza-se como um repositório de conteúdos.
Ao dar as boas-vindas ao Fórum, o reitor salientou que a transformação ocorre com vontade política, planejamento, reflexão e ciência. “Acreditamos que a palavra da ciência é fundamental neste momento histórico. Esta instituição tem o selo ODS de impacto em sustentabilidade no mundo da Educação”, observou. Já Adair Adams afirmou que é necessário desconstruir o atual modelo de desenvolvimento econômico mundial. E construir um crescimento sustentável, para que se possa garantir a vida no futuro.
Evaldo Cuiava lembrou que a região é privilegiada pela diversidade produtiva, ainda assim, tem grandes desafios para garantir a produção sustentável. “Como preparar nossos filhos para o futuro e fazer a diferença. Para isso, precisamos mudar a visão de mundo para a preservação da vida”. Já Boniatti destacou as dificuldades orçamentárias para construir políticas públicas sustentáveis efetivas e que cheguem às comunidades. “O Fórum é instrumento essencial para a construção de políticas sólidas”, reforçou o secretário.
O presidente da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, vereador Lucas Caregnato, ressaltou que um novo mundo possível passa pela garantia das condições de trabalho, lembrando o racismo ambiental que atinge sobretudo pessoas pobres e pretas. Representante da Procuradoria-Geral do RS, Adrio Gelatti, disse que o Ministério Público, por meio de suas promotorias, tem o dever de induzir e exigir que as políticas públicas criadas sejam devidamente cumpridas e colocadas em prática.
Painéis
As conferências começaram às 10h com a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica Taquari-Antas, Maria do Carmo Quissini, e a doutora em recursos hídricos do IPH/ UFRGS, Vânia Schneider, com o tema “Mudança Climática e o Desenvolvimento da Região”. Vânia apontou as consequências da crise climática com a intensidade das precipitações e destacou a relevância dos recursos hídricos e seus cenários. Alertou ainda para a perda do solo como recurso altamente valioso, que se constitui como zona de nascentes., o que leva a enchentes, secas e a escassez de água. Maria do Carmo destacou a importância das águas da área, que se estendem por mais de 500 quilômetros e constitui o maior Comitê de Bacia do Brasil com 119 municípios integrantes. “Precisamos pensar o que dispensamos nos rios para a mitigação dos eventos extremos e nos atentar que, quando se fala em recurso hídrico, a unidade é o comitê de Bacia”, assinalou.
“Mudança Climática: Impactos na Economia do RS e da Região” foi a abordagem de Hélio Henkin, coordenador do NETIT/UFRGS. Ele observou que sustentabilidade também pressupõe qualidade de vida e relações estreitas com a natureza. Segundo o coordenador, a diversificação econômica eleva a renda per capita, o que favorece aos consumidores a adquirir artigos mais sustentáveis. “Caxias está na região com o maior grau de diversificação produtiva e é preciso incentivar e incrementar a nossa economia de forma sustentável. Isso irá elevar a proporção econômica do RS em relação ao país”, comentou. Já o diretor do Sindicato da Indústria Metalúrgica e de Material Elétrico de Caxias do Sul, Paulo Scopel, tratou sobre a “Mudança Climática: Impactos no Desenvolvimento Industrial” e salientou a necessidade da adoção de estratégias de descarbonização do processo produtivo do setor para reduzir as emissões poluentes.
Por sua vez, Gilberto Bonatto, representante da Emater, trouxe os Impactos no Setor Agrícola. Citou as dificuldades enfrentadas pelos agricultores diante dos eventos climáticos extremos, como secas constantes e enchentes. Reafirmou a importância da agricultura familiar na região, que produz grande variedade de produtos. “É a base econômica de mais de 90% dos municípios da região. Só não produzimos arroz irrigado”, exemplificou. Mencionou ainda o papel estratégico da agroindústria com importante protagonismo das mulheres e presença dos jovens empreendedores no setor. Por outro lado, a produção agroecológica enfrenta problemas pelo envelhecimento da mão de obra desse segmento.
“Impactos no Setor do Turismo” foi o destaque da representante do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria da Região Uva e Vinho, Marcia Ferronato. Conforme ela, o turismo tem se revelado um “gigante invisível” que também polui quando não há planejamento, com qualquer matriz econômica. Entre as características do setor, ela aponta que o turismo traz dinheiro novo para os destinos, tem distribuição de renda sistêmica, emprega jovens e mulheres e é entrada para o primeiro emprego, além de aproximar pessoas ao valorizar culturas.
Marcia revela que os cenários das enchentes fragilizou a cadeia muito mais que durante o período da pandemia. “As pessoas ainda acreditam que o RS está sem acessos e debaixo de água. As operadoras de turismo estão excluindo o estado dos destinos. Por isso, estamos atuando para desmontar esse conceito equivocado”, enfatizou. Ela lembrou que o turismo na região está baseado, em especial, no meio rural e essa característica precisa ser divulgada e incrementada. “Somos uma matriz econômica, precisamos de planejamento estratégico, de estruturas e de valorizar ações de preservação”, finalizou.
Trabalhadores
A abordagem do ponto de vista do trabalhador foi o assunto dividido pela secretária geral da CUT/RS, Silvana Piroli, e pelo dirigente Estadual do CTB/RS, Assis Mello. Silvana citou que a crise climática é consequência das ações da humanidade como extração contínua e excesso de consumo. “Temos uma indústria forte, mas que precisa se voltar para a redução dos danos à natureza. Isso porque as cidades não foram planejadas para incluir a todos e os trabalhadores, em geral, são os mais atingidos, pois moram em lugares inadequados como as encostas”, acentuou. Ela citou a importância do sistema público de água e esgoto da cidade e a necessidade de se cuidar das bacias de captação. “Construir e não preservar as bacias é comprometer o futuro”. Assis Mello demonstrou preocupação com as caraterísticas da indústria e as condições de trabalho no futuro. Citou o papel fundamental da mobilidade urbana para a qualidade de vida dos trabalhadores e a urgente necessidade de mudança da matriz econômica. “O debate sobre a importância da água em todos os sistemas requer a participação de todos”, acentuou.
Após as conferências, foi promovido o debate em plenário, com apresentação de propostas pela plateia.
*Com informações de Erenice de Oliveira, da assessoria do Fórum Democrático
Texto: Sheyla Scardoelli – MTE 6727
Foto: Lauro Alves

