“Eles (os norte-americanos) precisam da nossa matéria-prima, dos nossos produtos e não se consegue um fornecedor de uma hora para outra. Então estamos tentando que eles lá forcem também o governo americano a entrar num bom senso, numa normalidade como disse o deputado (Miguel) Rossetto e voltem a taxar em 10%, que seria o normal. Não podemos deixar nossas empresas abandonadas”. A afirmação do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, deu o tom do debate realizado na Comissão de Economia, Desenvolvimento Sustentável e do Turismo por proposição do líder da bancada PT/PCdoB, Miguel Rossetto sobre as consequências da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelos Estados Unidos.
De acordo com o líder empresarial, o impacto econômico se dará sobre um grupo de 1,1 mil empresas gaúchas que exportam para os Estados Unidos. E pode gerar a perda de 145 mil empregos. Uma característica do RS é que temos empresas de portes variados, não são apenas grandes conglomerados. Temos empresas extremamente afetadas, outras moderadamente afetadas e outras não afetadas. O setor da madeira, por exemplo, do ponto de vista de faturamento é o que mais vai perder. Teoricamente, é o que teria maior dificuldade na empregabilidade, caso a taxação seja implementada. 2,2% do faturamento do RS está em jogo. O impacto no PIB será de R$ 1,9 bilhão.
O presidente da Fiergs frisou que o desemprego afeta todas as indústrias e consequentemente o comércio gaúcho. Para tentar evitar este prejuízo, afirmou, as três federações do Sul do país tem se reunido e é consenso entre os empresários dos três estados é de que as negociações são fundamentais. “A indústria gaúcha só exporta para lá produtos manufaturados, com valor agregado. É hora de muita paciência para tentarmos resolver isso porque para a indústria brasileira e especialmente a gaúcha é fundamental. O faturamento de algumas indústrias depende 95% das exportações para os Estados Unidos”, disse Bier, garantindo que a indústria gaúcha também vai começar a negociar com os parceiros norte-americanos.

Economista-chefe da Unidade de Estudos Econômicos da Fiergs, Giovani Baggio avaliou as medidas anunciadas pelo governo americano e explicou que o mundo vive um momento disruptivo no comércio internacional. Baggio explicou que a economia gaúcha é “muito voltada” ao mercado externo. Diante desse cenário, disse que o tarifaço pode causar forte impacto na economia do RS e reflexos no número de empregos. Ele mencionou os setores que devem ser afetados: indústria da transformação, madeira e produtos de metal.
O deputado Zé Nunes reforçou o papel da Fiergs para contribuir nas discussões sobre alternativas à taxação do presidente Donald Trump à economia brasileira. Na avaliação do parlamentar, as decisões do norte-americano estão fora do padrão da economia mundial e representam um retrocesso nas relações comerciais entre os países. Zé Nunes ressaltou que as medidas do governo dos EUA são motivadas por questões políticas, principalmente por conta da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, um aliado de Trump.
Ao destacar a importância de esgotar as negociações e buscar bom senso nas tratativas envolvendo as tarifas propostas pelos americanos, Zé Nunes destacou que é um momento de união do país. “O comportamento do governo federal é no sentido de construir e não responder na mesma moeda. A ideia é construir caminhos”, afirmou, destacando que a história vai mostrar os equívocos das medidas do governo Trump. “Precisamos construir juntos a defesa das cadeias produtivas do Estado”, acrescentou. Já o deputado Halley Lino observou que é preciso negociação, ações que possamos construir para amortecer os impactos e buscar novos mercados. “O que for possível na linha de compensação tributária. É preciso buscar alternativas, novos mercados, sabendo que isso é a médio e longo prazo”.
O líder da bancada PT/PCdoB, deputado Miguel Rossetto afirmou que a soberania é inegociável, portanto esta crise deve ser enfrentada com inteligência e sabedoria, prudência e firmeza a partir da preservação dos interesses da economia brasileira e da indústria brasileira e gaúcha. “O perfil da nossa exportação para os Estados Unidos tem como base produtos manufaturados, o que é muito importante, pois agrega valor”. Para Rossetto, o país tem se movimentado corretamente buscando uma multilateralidade. Ao mesmo tempo em que preserva relações com Europa e busca o acordo Mercosul-Europa, Mercosul-América do Sul, o Brasil avançou em relação aos Brics e se movimentou em escala global, o que é muito positivo. “Esta agenda é de natureza conflitiva”.
Rossetto frisou que a economia brasileira está em expansão, onde a indústria cresce com investimentos extraordinários anunciados. “Penso que é muito importante a preservação da economia gaúcha, pois somos brasileiros, mas somos gaúchos e estamos comprometidos com a economia do RS. Os setores industriais gaúchos não podem ficar de fora desse processo de negociação de redução tarifária”, defendeu. O deputado disse que o objetivo é manter o patamar de 10% e não entrar em agosto as alíquotas de 50%.
Texto: Claiton Stumpf (MTb 9727) e Felipe Samuel (MTb 12.344)
Fotos: Nathan Oliveira

