Estiagens, excesso de chuvas, quebras de safra, aumento do dólar sobre o Real, crescimento do consumo e a preferência do médio e grande produtor rural em vender para fora. Tudo isso somado, numa economia de livre mercado é, com o perdão do trocadilho, um prato cheio para que os preços dos alimentos inflacionem.
A questão do dólar é exemplar. “Ignorando” que o valor da moeda estrangeira interfere significativamente na economia de países emergentes como o Brasil, a antiga gestão do Banco Central, que por lei comandou a instituição durante todo o governo passado e avançou nos primeiros dois anos do governo Lula, praticamente não fez nenhum leilão para a venda de dólares como forma de manter a moeda em nível sensato. Quando ela chegou a R$ 6, no final de 2024, o BC tinha atuado apenas uma vez no mercado de câmbio brasileiro, apesar da insistência da atual equipe econômica.
Para efeito comparativo, nos quatro anos de Bolsonaro, que lhe deu o emprego, Roberto Campos Neto (sim, seu avô foi o todo poderoso ministro da Ditadura Militar) fez a lição de casa 113 vezes para baixar o preço da “verdinha”. E a atual gestão, mudar completamente os rumos da atuação do BC, dando um cavalo-de-pau em todas as diretrizes até então aplicadas, modestamente comparando, é como virar totalmente o leme de um transatlântico: até alcançar a navegação desejada leva algum tempo.
Mas ao invés de reclamar do que herdou e protestar contra o clima ofertado pela natureza, o governo Lula arregaçou as mangas e lançou mão de várias ferramentas em busca de alívio para o bolso das famílias. Zerar taxas de importação de alguns produtos, recriar toda a estrutura dos armazéns da Conab para a formação de estoques reguladores que fora desmontada a partir de 2019, aumentar o financiamento no campo e criar um programa para a regularização de dívidas e facilitação de acesso ao crédito rural da agricultura familiar são mecanismos necessários e muito bem-vindos, mas cujos resultados não se dão “da noite para o dia”.
Com o mesmo objetivo, têm sido realizados encontros e mantidos diálogos com a classe produtora, com os grandes atacadistas e representantes de gigantes do varejo nacional para buscar um entendimento comum sobre estratégias que resultem na minimização da pressão sobre os preços dos alimentos.
Ato contínuo, o governo solicitou apoio aos estados, para, num esforço conjunto, reduzir ou zerar impostos estaduais da cesta básica, que fora isenta de alíquotas federais na reforma tributária. Apesar de se tratar de um debate sério sobre o que cada ente federativo pode auxiliar num tema que diz respeito a toda a sociedade, nas respostas veio de tudo.
Tem governador, como o do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, se negando, inclusive, a avaliar a possibilidade. Na sua visão ideologizada, o presidente Lula “joga para a plateia”, ignorando que neste momento agudo o que está em pauta é o poder de compra de alimentos pela população. Ibaneis, cuja “administração” dos atos golpistas em 8 de Janeiro de 2023 foi no mínimo duvidosa, ignora que a renda média do brasileiro, apesar de ter aumentado nos dois últimos anos, é pouco mais de R$ 3 mil.
Na mesma toada, Tarcísio de Freitas, de São Paulo, disse não ter o que fazer, pois já teria feito sua parte e foi desmentido em público. Na verdade, Tarcísio concedeu um benefício fiscal que apenas reduz a base de cálculo, sem realmente isentá-la. Outro contrário foi o mineiro Romeu Zema, que não apenas reajustou o próprio salário em 300% como aumentou alíquotas em fevereiro passado. Mas para lacrar na internet, filmou-se comendo uma banana com casca em “protesto” ao aumento de preços.
E como que para não renegar suas convicções elitistas, aqui no RS, o governador Eduardo Leite, que, no final de 2023, tentou aumentar a alíquota do imposto (e foi derrotado), deu a entender que a política de cashback, que restitui os impostos pagos aos mais pobres, é suficiente. Na verdade, Leite não ignora as dificuldades que as populações mais pobres têm para acessar esse tipo de benefício de forma ampla, ele conta com isso. E é bom lembrar: o RS está com o pagamento da dívida diante da União suspensa por três anos, o que fortalece a possibilidade de medidas de impacto social como essa.
Em comum, todos de extrema direita ou pré-candidatos contra Lula em 2026 – ou ambos.
E em uníssono, defendem que no lugar de cortar impostos de alimentos, o governo federal promova um amplo “ajuste de gastos”, que nada mais é do que corte substancial de investimentos públicos para fomentar a economia ou investir no social.
Ao olhar o pedido de Lula aos estados, precisamos enxergar a “floresta” e não apenas a “árvore”. E ver quem está ao lado do povo e da classe trabalhadora. No nosso caso, o Piratini vira a cara, faz de conta que não conhece e passa a léguas de distância, no outro lado da rua.
* Deputado Valdeci Oliveira, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul
Artigo publicado originalmente no site da Assembleia Legislativa em 14 de março de 2025
Foto: Vanessa Vargas